Detalhes da Carta

No exílio entre 1971 e 1986, o dramaturgo Augusto Boal se correspondeu com uma série de amigos que lhe davam notícias da situação política e cultural do Brasil sob o regime militar. Todo um panorama do universo artístico de 1978 é vivamente descrito, nesta carta, pelo ator e diretor Fernando Peixoto, ligado ao Teatro Oficina e ao Teatro de Arena, a que Boal é visceralmente  ligado. Parte dessa correspondência integra a exposição Meus caros amigos – Augusto Boal – cartas do exílio, em cartaz no IMS de 4 de junho a 21 de agosto de 2016.

São Paulo, 4 de março [de 1978]

Boal,

Acabo de escrever 26 laudas sobre você! Misturei Liège e Paris, num longo artigo-reportagem para a revista do Ênio [Silveira]. O Milagre[1] vai sair breve. Escrevi um projeto da edição do teu teatro. Não encontrei com ele pessoalmente, mas me parece que a coisa sai. Sei que ele vai editar também o teatro do Paulo Pontes. Por isso não deu para forçar datas. Mas sugeri uma decisão urgente, para constar do volume quatro do teatro do Cecco,[2] que sai com Zumbi e Tiradentes.[3] Vou tentar colocar antes os artigos da edição do Tiradentes, a partir do que trata do coringa (omitindo a primeira parte, por problema de encarecimento do livro). Acabo também de escrever a orelha. Tento retomar as coisas. Velho, está fervendo o país. Fervendo mesmo. Tenta ler o Movimento[4] aí. Estão sendo reveladas coisas inacreditáveis, até para mim, que já sabia delas. Esta semana o estouro é a descoberta do sítio do Fleury, onde muita gente foi morta.[5] Está em todos os jornais e revistas. O Movimento está com um material fantástico, parece descoberta de campo de concentração. Aguardamos o 15 de março. Mas ferve tudo. O movimento político em São Paulo é vivo. Já fui procurado por inúmeros grupos do MDB e a gente está pensando num milhão de coisas. Falta gente. Cecco está extraordinariamente lúcido. Ele e Vânia estão trabalhando bastante. Meu carro já desfila pelas ruas com um puta cartaz de anistia. São muitos os carros assim, na cidade. A imprensa está tendo um papel inacreditável. Mas a reação oficial é sutil e perigosa: existem hoje o que chamam de patrulhas ideológicas. Criadas um pouco na base da esquerda combater o Glauber que, infelizmente, parece que passou para o outro lado mesmo. Me parece que também o Zé Celso, em outro nível, está fazendo o jogo da loucura do poder. Mas as patrulhas são falsas: na verdade é a direita que se disfarça e está criando um fantástico jogo de nos dividir todos, jogar uns contra os outros. Cuidado com a revista IstoÉ, que pode te procurar para alguma entrevista. Estão tentando envolver muita gente, na base de um sensacionalismo perigoso. Na semana passada tentaram fazer o Guarnieri se colocar contra a dramaturgia, na base de criar uma espécie de onda de que ele é o único grande autor. Ele percebeu o jogo, estavam inclusive tentando fazer ele te atacar, ele pulou, recusou, esbravejou. A barra pesa, mas o debate ideológico, em todos os campos, não só na intelectualidade, é foda, mas necessário e vai ser preciso estar atento e forte. E unido.

Ruy [Guerra] voltou. Vou escrever um roteiro com ele, o que talvez me deixe no Rio por um ou dois meses. Devo montar a peça do Guarnieri, que é genial, uma autocrítica violenta, meio dilacerante, talvez um pouco pessimista no fim de tudo, mas um desabafo da nossa geração. Fiquei arrepiado, tive ímpetos de reagir contra certos instantes, mas engoli seco. Um puta tesão de dirigir a peça, que vai acabar sendo um confronto comigo mesmo também. Chama-se Crônica de um cidadão sem nenhuma importância. É uma espécie de visão crítica do intelectual de classe média, feita a partir de uma visão popular autêntica. Ele conseguiu um milagre para incorporar os dois lados nele mesmo. Está bom aqui, mas dá saudades da neve (e do ballet) também. Mário dirige um texto novo do Plínio [Marcos]. Zé Celso vai montar Os sertões. Vou para o Rio para a estreia do Murro.[6] Você ganhou o prêmio Mambembe, do Ministério da Educação e Cultura!!!!! Em certo sentido acho que coloca o poder na parede mais que o Molière. Vão te chamar para receber o prêmio? Afinal, é um prêmio oficial, do governo. Sábato [Magaldi] me telefonou contente. Acha que o governo vai ter que se definir. Saiu meu livro sobre Sade.[7]

Até, beijo pra Cecilia, abração pro Fabian e Julian, idem pros amigos, Emile [Copfermann],[8] [Richard] Monod, [Bernard] Dort,[9] etc. Escreve.

Fernando

P.S.: Recebi carta do Atisani. Nada de Dulce ou do Felipe (escrevi para ele ainda da Alemanha). – Martha vai te mandar os borderaux do Murro. Deu muito dinheiro, pelo que eu estou sabendo. O problema do Léon (falei com ele e com outros) foi ele mesmo. Parece que se embananou, falta de experiência, etc. Ele ficou em São Paulo. Está trabalhando com Guarnieri num roteiro. Mandou abraço pra você.

Acervo Augusto Boal

[1] N.S.: Milagre no Brasil é um livro de Augusto Boal, publicado em 1979 pela Civilização Brasileira.
[2] N.S.: Apelido do ator e diretor Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006).
[3] N.S.: Arena conta Zumbi e Arena conta Tiradentes são peças escritas por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, apresentadas pelo Teatro de Arena.
[4] N.S.: O jornal Movimento foi um dos periódicos mais importantes da imprensa alternativa durante a ditadura militar.
[5] N.S.: A Fazenda 31 de Março, localizada em Parelheiros, São Paulo, foi usada como centro de torturas e assassinatos de opositores do regime militar. Líder do Esquadrão da Morte, grupo paramilitar que praticava execuções, o delegado paulista Sérgio Fleury capturou, torturou e assassinou muitos presos políticos durante a ditadura.
[6] N.S.: Murro em ponta de faca é uma peça escrita por Augusto Boal no exílio e montada no Brasil em 1978.
[7] N.S.: Refere-se ao livro Sade – vida e obra.
[8] N.S.: Emile Copfermann (1931-1999) foi um editor francês.
[9] N.S.: Richard Monod (1930-1989) e Bernard Dort (1929-1994) foram escritores e professores de teatro em universidades francesas.