A vida é um bocejar infinito

De: Álvares de Azevedo Para: Maria Luísa Silveira da Mota

Em 1848, o poeta paulistano Álvares de Azevedo deixa o Rio de Janeiro, onde morava sua família, e retorna à cidade de nascimento para concluir os estudos na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Aos 17 anos, o jovem não demonstra entusiasmo ao chegar à capital, que, naqueles tempos, era habitada por pouco menos de 15 mil pessoas. Em carta à sua mãe, Maria Luísa Silveira da Mota Azevedo, o autor de Lira dos vinte anos (1853) traça um perfil diferente da metrópole que conhecemos hoje.

São Paulo, 12 junho de 1849

Tenho a vista a sua de 3 de corrente que com muito prazer recebi.

Enquanto no Rio reluzem esses bailes a mil e uma noites, com toda a sua mania de fulgências e luzes, por aqui arrasta-se o narcótico e cínico baile da concórdia Paulistana.

Nunca vi lugar tão insípido, como hoje está São Paulo […]

Em 1969, o ex-jogador, cronista esportivo e militante político João Saldanha foi convidado para ser treinador da Seleção Brasileira. A campanha nas eliminatórias para a Copa não poderia ter sido melhor: seis jogos e seis vitórias. Entretanto, a presença de João Sem Medo, como ficou conhecido, em cargo tão importante não interessava ao general Emílio Garrastazu Médici, terceiro comandante da ditadura militar. Saldanha relatou episódios que o levariam a deixar a função em uma carta aberta publicada na revista Placar, da qual reproduzimos alguns trechos.

[Rio de Janeiro], 27 de março de 1970

Um dia o dr. Antônio do Passo[1] apareceu na minha casa e me convidou para ser treinador da Seleção Brasileira. Não me falou em contrato, em dinheiro, em nada. Só perguntou se eu queria ser o treinador da Seleção. Eu disse a ele:

– Isso […]

Após o assassinato brutal de George Floyd, no dia 25 de maio, em Minneapolis, nos Estados Unidos, protestos ao redor do mundo estabeleceram um ponto de inflexão nas lutas antirracistas. No Brasil, a tragédia de Floyd materializa-se em um sistema perverso: um pêndulo entre o racismo estrutural e o genocídio. Em carta simbólica a Carolina Maria de Jesus, cujo acervo está sob a guarda do Instituto Moreira Salles, a escritora Cidinha da Silva reflete sobre o cotidiano da mulher negra e comenta os recentes casos de racismo que ocorreram no país. 

São Paulo, 8 de julho de 2020.

Carolina, bom dia!

Dia de sol nesse inverno de pandemia em São Paulo. Como você está? Espero que esteja em paz. Do lado de cá, temos feito a travessia no barco da coragem, como a vida exige.

Te escrevo da varanda da d. Ruth, ela foi passar dois dias no sítio em  Parelheiros, enquanto eu […]

Durante os anos 1930, os principais artistas brasileiros voltaram seus olhos para as injustiças sociais do país. A amizade entre Graciliano Ramos e Candido Portinari, por exemplo, foi marcada pelo tema, numa parceria intelectual refletida em robusta correspondência epistolar. Na carta a seguir, o autor de “Vidas secas” (1938) propõe uma reflexão sobre o papel da dor no fazer artístico. A obra de Graciliano Ramos estará presente na próxima edição do Clube de Leitura do Instituto Moreira Salles, que começa no mês de julho próximo.

Rio, 18 de Fevereiro de 1946

Do site graciliano.com.br[1]

Caríssimo Portinari:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da […]

Sua mãe, Clarice

De: Clarice Lispector Para: Pedro Gurgel Valente

Dois anos antes de morrer, Clarice Lispector escreve uma carta afetuosa ao filho mais velho, Pedro Gurgel Valente, sobre o bem-estar que sentia ao pintar. Aqui, reúnem-se duas facetas de Clarice: a maternidade e o fascínio pelas artes plásticas. Dentre os vinte quadros pintados pela escritora, dois fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles e estarão, em breve, na exposição dedicada a Clarice no ano de seu centenário.

Rio, 25 de julho de 1975

Pedro, meu querido filho, como vai?

Lembre-se ainda que eu às vezes pintava quadros, e você também? Pois agora comprei tintas de acrílico, pincéis e telas – é uma libertação pintar. Liberta mais do que escrever.

 

            Sua mãe


 

Neste vídeo de 2014, Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, […]