Morador de Londres desde 1968, o jornalista Ivan Lessa nunca se desligou dos amigos brasileiros. Na capital londrina, onde passara a colaborar na British Broadcasting Corporation, a BBC de Londres, não deixava de receber cartas como esta, de Millôr Fernandes, que, em estilo consagrado, dá notícias do que acontecia no Brasil durante o truculento governo Médici.

Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1970

Meu amor I! Vão, lê essa:

Eu sei que a hora não está para trocadilhos mas, que fazer, como diziam Lenine e Ignazio Silone?[1] Com Francis preso eu fico com a responsabilidade da cultura, com o Tarso preso eu fico também com a irresponsabilidade da incultura, com o Fortuna[2] preso sou […]

Um dos intelectuais mais atuantes no período da ditadura militar no Brasil, o bravo editor Ênio Silveira lançou, em 1965, a Revista Civilização Brasileira, periódico que levava o nome da editora sob seu comando. Não seria a sua detenção quatro vezes seguidas, entre 1964 e 1969, a impedi-lo de fazer da revista um instrumento de combate à censura, sobretudo no campo das artes. Sob a forma de editorial, aí publicou duas “Epístolas ao marechal”, dirigidas ao então presidente, marechal Castello Branco. Reproduz-se a seguir a primeira delas, documento de extraordinária lucidez, vigor intelectual e elegância estilística.

Senhor marechal,

Acredito que seus muitos afazeres, antes e depois do movimento insurrecional que o conduziu à chefia da nação brasileira, não lhe tenham permitido tomar conhecimento de um livro curioso, cuja leitura me parece recomendável a todo chefe de governo e que nos Estados Unidos da América do Norte, onde foi originalmente publicado, já […]

A indignação de Clarice Lispector contra o conceito de estudantes “excedentes”, durante o governo do general Costa e Silva (1967-1969), levou-a a escrever esta carta, tão lúcida quanto desafiadora, ao ministro da Educação, Tarso Dutra. Efeito ou não desta carta, em abril de 1969, o ministro assinaria decreto autorizando o aproveitamento de 3.522 “excedentes”.

[Rio de Janeiro], 17 de fevereiro de 1968

Em primeiro lugar queríamos saber se as verbas destina­das para a educação são distribuídas pelo senhor. Se não, esta carta deveria se dirigir ao presidente da República. A este não me dirijo por uma espécie de pudor, enquanto sin­to-me com mais direito de falar com o ministro da Educação por já ter sido estudante.

O […]

Contemplada com a prestigiosa Bolsa Humboldt, cujo lema é “não investimos em projetos, mas em pessoas”, a historiadora de arte brasileira Paula Ramos escreve, de Berlim, a convite do Correio IMS, sobre as prime­­iras descobertas durante uma estadia que se prolongará por 18 meses. Autora do magnífico A modernidade impressa – artistas ilustradores da Livraria do Globo – Porto Alegre, Paula se dedicará à pesquisa da formação do artista João Fahrion, na Alemanha dos anos 1920.

Berlim, 23 de julho de 2018

Para os que trabalham no ambiente acadêmico e gostam de estudar e de pesquisar, há poucos países tão interessantes e desafiadores quanto a Alemanha. Com suas universidades, laboratórios, bibliotecas, museus, centros de documentação e instituições de fomento, o país atrai, anualmente, centenas de estudantes e investigadores estrangeiros. Muitos vêm beneficiados por bolsas oriundas de seus […]

Em busca de uma interpretação para a derrota geracional com que se defronta, Darcy Ribeiro expressa sua angústia em carta a Anísio Teixeira, amigo com quem compartilhava um projeto para o Brasil.

[Montevidéu], 28 de março de 1966

Mestre Anísio,

Recebi sua carta, mais amarga do que devera com a vida que tem aí ao lado de Emilinha e de Baby, fruindo as doces funções de avô e, sobretudo, repensando a universidade dos povos pobres. Seu amargor não é erradicável, meu caro. Ele lhe vem de se ter feito a conscientização mais aguda […]