Contemplada com a prestigiosa Bolsa Humboldt, cujo lema é “não investimos em projetos, mas em pessoas”, a historiadora de arte brasileira Paula Ramos escreve, de Berlim, a convite do Correio IMS, sobre as prime­­iras descobertas durante uma estadia que se prolongará por 18 meses. Autora do magnífico A modernidade impressa – artistas ilustradores da Livraria do Globo – Porto Alegre, Paula se dedicará à pesquisa da formação do artista João Fahrion, na Alemanha dos anos 1920.

Berlim, 23 de julho de 2018

Para os que trabalham no ambiente acadêmico e gostam de estudar e de pesquisar, há poucos países tão interessantes e desafiadores quanto a Alemanha. Com suas universidades, laboratórios, bibliotecas, museus, centros de documentação e instituições de fomento, o país atrai, anualmente, centenas de estudantes e investigadores estrangeiros. Muitos vêm beneficiados por bolsas oriundas de seus […]

Em busca de uma interpretação para a derrota geracional com que se defronta, Darcy Ribeiro expressa sua angústia em carta a Anísio Teixeira, amigo com quem compartilhava um projeto para o Brasil.

[Montevidéu], 28 de março de 1966

Mestre Anísio,

Recebi sua carta, mais amarga do que devera com a vida que tem aí ao lado de Emilinha e de Baby, fruindo as doces funções de avô e, sobretudo, repensando a universidade dos povos pobres. Seu amargor não é erradicável, meu caro. Ele lhe vem de se ter feito a conscientização mais aguda […]

A troca de cartas entre Vinicius de Moraes e Chico Buarque a respeito de Valsinha mostra como foi a parceria para essa canção que encantou o público. Gravada por Chico no elepê Construção, de 1971, recebeu, no mesmo ano, as interpretações de Ângela Maria, no elepê Ângela, e do grupo MPB-4 em De palavra… em palavra…

Rio [de Janeiro], 2 de fevereiro [de 1971]

Caro poeta,

Recebi as suas duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto […]

Um ano antes de ter o carro onde estava alvejado por 13 tiros e ter sido morta junto com o motorista que a conduzia, a 5ª vereadora mais votada do Rio de Janeiro nas eleições de 2016, Marielle Franco, escreveu esta carta ao coletivo Bastardos da PUC-Rio. O grupo existe há dois anos e é formado por bolsistas advindos de escolas públicas, negros e pobres, moradores de favela. Nesta carta, a vereadora, “cria da favela da Maré”, socióloga formada com bolsa integral na mesma universidade, relata sua experiência e encoraja os alunos a seguir seus estudos e a resistir às adversidades encontradas pelo caminho.

Chegar à PUC-Rio pode parecer algo um tanto tenso: a natural insegurança em ocupar um espaço novo; pessoas e normas ainda desconhecidas… É impossível não sentir aquele frio na barriga! Ainda mais quando ouvimos aquelas histórias de que há professores que dão textos e filmes em inglês sem tradução, de que não se veem alunos […]

O lançamento do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, deu à estreante a convicção de seu futuro de escritora: sobre o livro, e em curto espaço de tempo, escreveriam os nomes mais importantes da crítica literária brasileira, entre os quais Antonio Candido, que viu na obra “performance da melhor qualidade”. Mas faltou um: Mário de Andrade, cujo silêncio até a data desta carta inquietou a romancista a tal ponto que ela, com graça intrigante, reivindica opinião. Lendo-a agora, tem-se a impressão de que Clarice quase desafia o papa do modernismo, tão segura parece se sentir como escritora.  

Belém, 27 de junho de 1944

Mário de Andrade

Acostumei-me de tal forma a contar com o senhor que, embora temendo perturbá-lo e não lhe despertar o menor interesse, escrevo-lhe esta carta.

O fato do senhor não ter criticado meu livro serve evidentemente de resposta e eu a compreendo. No entanto, gostaria de bem mais do que o silêncio, mesmo que […]