A primeira viagem de Mário de Andrade ao Rio de Janeiro foi no Carnaval de 1923. Na cidade, ele aproveitaria apenas dois dias, se recolhendo, depois, na tranquila Petrópolis, onde combinara de encontrar Manuel Bandeira. Se, nos primeiros dez minutos, a festa de Momo causaria um “choque terrível” ao poeta paulista, logo esqueceria todos os compromissos firmados tanto com parentes quanto com o próprio Bandeira, e Mário se refestelaria na folia durante todos os dias. A “aventura curiosíssima” na cidade foi registrada em verso no poema “Carnaval carioca”, publicado em 1927.

[São Paulo, fevereiro de 1923]

Querido Manuel,

Não me condenes antes que me explique.

Depois perdoarás.

Foi assim. Desde que cheguei ao Rio disse aos amigos: dois dias de carnaval serão meus. Quero estar livre e só. Para gozar e observar. Na segunda-feira, passarei o dia com Manuel, em Petrópolis.  Voltarei à noite para ver […]

O poeta Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda, uma das principais críticas da cultura brasileira em ação, são amigos de longa data. Ele, que completa 80 anos neste 18 de fevereiro de 2020, doou recentemente seu arquivo ao Instituto Moreira Salles. Entre os documentos, fotografias e originais de poemas que, em breve estarão disponíveis para consulta, encontra-se esta carta em que “Helô” revela as saudades do amigo poeta e as novidades dos Estados Unidos, quando ministrava aulas de Literatura Brasileira na Columbia University como professora visitante.

Nova Iorque, 28 de junho de 1984

Armando querido:

Não foi uma carta que recebi. Foi você inteirinho dentro do envelope. Papel de serviço público, caligrafia psicoirrepreensível, mergulhando vestido. Quase morro de saudades. Saudades de implicar com você. Aqui tem tudo que a gente possa pensar self-made men, freaks, junkies, scholars, artists, qualquer coisa, mas […]

No ano do centenário de Lygia Clark, lembramos de sua intensa amizade com Hélio Oiticica – ambos fundamentais para o cenário internacional das artes plásticas. Nesta carta ao amigo e parceiro de trabalho, Lygia, que lecionava na Sorbonne, comenta a relação de suas experiências artísticas e a psicanálise usando imagens surrealistas para descrever o processo no divã. Vivendo em Paris desde 1970, a “não artista” fala sobre música, amigos em comum, como Jards Macalé, e obras em andamento, como Parangolé e Cabeça coletiva.

Paris, 6.11.1974

Meu querido – Seu telefonema do dia 23 de outubro foi o maior presente que poderia imaginar. Só que, imagine, estava dopada com dois Mogadons e ainda um Fenergan por causa da insônia, e tinha ainda análise de manhã cedo. Nem pude comentar a sua maravilhosa carta que é na realidade um documento; […]

Hélio Pellegrino, amigo de toda a vida de Otto Lara Resende, lhe envia, de Minas, esta carta escrita em dois momentos diferentes, que vão do desespero à esperança. A profunda angústia do primeiro resultaria em “Prosa de 24 de agosto de 1947”, transposição desta carta para versos, que podem ser vistos aqui na galeria de imagens.

Belo Horizonte, 24 de agosto de 1947

Meu querido Otto,

Estou a escrever-lhe num dos momentos mais definitivos da minha vida, num desses momentos em que o cálice das tristezas parece que vai transbordar. Hoje, Otto, neste agora, neste momento, a minha angústia é tamanha, o meu sofrimento é tão alto, que tudo o mais […]

Aos 62 anos, o já consagrado Drummond relembra episódios da infância vividos com o pai Carlos de Paula Andrade, presente em alguns de seus poemas e crônicas drummondianas. Nesta carta/crônica, publicada no jornal carioca Correio da Manhã, onde o poeta e cronista colaborou três vezes por semana durante 15 anos, ele recorda afetuosamente uma preciosa lição do pai que não pôde ser cumprida: “o essencial em duas palavras”.

 [Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 1964]

Às vezes o senhor me chamava para seu secretário, e isso me enchia de orgulho. Eu pequeno, o senhor tão grande — maior que um homem comum aos olhos de qualquer menino. Tudo no lugar era pequeno e doméstico, e o senhor, sim, era grande — começa […]