Jayme Ovalle, Otto Lara Resende e Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro, 1953.

Se perguntássemos a um leitor de poesia, sobretudo a um amante da obra de Manuel Bandeira, quem foi Eurico Alves, seguramente ouviríamos uma resposta tirada do poema “Escusa”, de Bandeira: “Eurico Alves, poeta baiano/ Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito/ Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant’Ana”. E até aí, muito provavelmente, iria seu conhecimento. Alves, cujo assento no olimpo modernista foi negado, acabou se tornando mais um personagem da mitologia bandeiriana, como Totônio Rodrigues, Rosa ou Tomásia.

Algo similar aconteceria se lhe perguntássemos quem foi Jayme Ovalle. O leitor de Bandeira imediatamente se lembraria do “Poema só para Jayme Ovalle” – ou até de outros poemas e crônicas em que ele aparece. Mas Ovalle, ao contrário de Eurico Alves, foi figura mítica para diversos autores. O compositor e poeta é mencionado em textos de Vinicius de Moraes, Dante Milano, Murilo Mendes e Fernando Sabino, para citar somente alguns. Companheiro de pândega de pelo menos duas gerações hoje canônicas, tornou-se o mais ilustre desconhecido na cultura nacional do século XX.

Entre suas obras, as únicas que realmente sobreviveram foram as peças musicais “Modinha” e “Azulão”, esta com versos de Bandeira, gravada por grandes nomes como Nara Leão e Orlando Silva. Jayme Ovalle foi, como diz a expressão estadunidense, um one-hit wonder. Em todo o resto, falhou. Nas palavras de Dante Milano, citadas da notável biografia de Ovalle escrita por Humberto Werneck, O santo sujo (Cosac Naify, 2008):

Tudo o que fazia era prodigioso, mas não se dava ao trabalho de realizar. Não podia, não havia tempo. […] Do pouco que resta de sua passagem pela Terra, há um livro em inglês, ditado em transe a uma amiga e secretária, e algumas músicas fugitivas e encantadas. E basta. Nem era preciso tanto. De tal homem bastava a presença.

Bastava a presença. A obra era desnecessária. Ou seja, por trás da estima que nutriam por Ovalle, havia a óbvia condescendência em relação à qualidade de sua arte. Jayme Ovalle era medíocre como músico e, como poeta, péssimo. Porém, na boca dos amigos, se transfigurava. Vinicius de Moraes o definiu como “o poeta em estado virgem. A mais bela crisálida de poesia que jamais existiu desde William Blake. É o mistério poético em toda a sua inocência, em toda a sua beleza natural. É voo, é transcendência absoluta. É amor em estado de graça” (citado em “Fragmentos de uma suíte ovalliana”, matéria de Fernando Sabino para o Jornal do Brasil, 15/07/1974). Jayme não era William, só foi muito querido por seus amigos.

Ninguém seria capaz de duvidar seriamente da afeição que todos ao redor de Ovalle tinham por ele. No entanto, também é difícil acusá-los de celebrar sua obra por pena ou protecionismo de panelinha; nunca a puseram no mesmo patamar das dos demais, excluindo-se o arroubo acrítico de Vinicius ao compará-lo a William Blake. Mas Vinicius era mesmo dado a arroubos.

Manuel Bandeira, de todos talvez o que se sentisse mais próximo de Ovalle, não se furtou a apontar publicamente a precariedade de sua obra. Em crônica intitulada “Ovalle”, reunida em Flauta de papel (1957), escreveu que o compositor

desperdiçara em serestas de violão os anos em que se pode aprender. Bem que ele tentou recuperar o tempo perdido e antes de embarcar para Londres [onde escreveria seu livro “ditado em transe”] andou tomando lições com Paulo Silva. Mas era tarde, evidentemente. A música de Ovalle tinha de ficar no que ficou: uma extensão ao piano daquilo que ele balbuciava com indizível sortilégio nas cordas do violão.

À poesia de Ovalle, Bandeira deu pouca atenção – e possivelmente jamais considerou incluí-lo no elenco de modernistas em sua Apresentação da poesia brasileira, embora tenha incluído três poemas dele nos Poemas traduzidos. Mas o amava, como fica patente em sua correspondência, especialmente nas cartas trocadas com Mário de Andrade em que o mencionam.

Mário de Andrade só conheceu Ovalle pessoalmente em julho de 1926, apesar da insistência do amigo Bandeira para que se encontrassem. “Você precisa vir ao Rio só pra conhecer e assuntar o Ovalle”, escreve em 1925. Em fevereiro de 1926, como se lê na biografia escrita por Werneck, Bandeira repete o pedido: “Eu tinha vontade que você conhecesse o Ovalle pra dar sua opinião sobre ele. […] Porque Ovalle é um caso que só você pode avaliar e quem sabe encaminhar”.

Quando finalmente se encontram, a impressão que Mário leva de Ovalle é no mínimo dúbia. Em carta de 22 de julho de 1926:

Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle. […] Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. […]  Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza de ideais que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. […] tenho a certeza de que não chegará a criar coisa nenhuma de durável, tanto na poesia como até na música. […] O que fica mesmo por enquanto de bem firme na minha opinião é que nunca vi incapacidade criadora artística maior que a dele.

A resposta de Bandeira, datada de dois dias depois (24/07/1926), corrobora as opiniões de Mário – e surpreendentemente vai além:

A tua ficha do Ovalle está estupenda e acho mais que a incapacidade criadora do nosso extraordinário “irmãozinho” não é só no terreno artístico mas até no afetivo. Estando com ele, conversando, convivendo, se sente o potencial de bondade mas cadê voltagem para distribuir a força para longe? Em matéria de música o mal é a ignorância com incapacidade de aprender por impossibilidade de aplicação. No domínio afetivo a dispersão sentimental. O que apesar de tudo eu acho impressionante, o que marca o Ovalle, a trajetória do Ovalle, é essa força de sentimento e de aspirações contrastada pela incapacidade de expressão […]
Você não sabe certos cães muito inteligentes, muito afetuosos, quando começam a olhar fixo pra gente, ganindo dolorosamente? Querem falar e não podem. O Ovalle me dá essa impressão.

O último trecho, grifado por mim, é uma das ofensas mais ternas da história literária. Lembra o fiel cão Argos, a única criatura que reconhece Odisseu ao fim de sua longa viagem de retorno a Ítaca. Velho, raquítico e doente, porém, o bicho é incapaz de ir ao encontro de seu dono: mexe as orelhas, abana o rabo, tenta se levantar e não consegue. Morre em seguida. Por outro lado, também lembra os inúmeros insultos em Shakespeare envolvendo cães, símbolos máximos da inferioridade na obra do bardo. A figura de Ovalle pintada por Bandeira é uma besta mitológico-literária metade Argos, metade cão shakespeariano.

Em grande medida, foi Bandeira quem concedeu a Ovalle a precária imortalidade de que desfruta atualmente. Foi seu parceiro em “Azulão”, mas, mais do que isso, o transformou em entidade de sua mitologia poética. Entretanto, há um quê de especial no Ovalle banderiano que o distingue de Rosa, Dona Aninha Viegas ou Totônio Rodrigues. Estes, como diz Davi Arrigucci Jr. em Humildade, paixão e morte, “eram todos seres de carne e osso e um dia desapareceram; mas viraram frases e palavras, para viver para sempre”. Ovalle foi de carne e osso, também virou frases e palavras, mas virou uma espécie de centauro, um Anúbis meio cachorro, meio artista amado, mas medíocre.

Para tentar compreender essa distinção, é preciso voltar às cartas trocadas entre Bandeira e Mário, ao “Poema só para Jayme Ovalle” e à história de sua publicação.

Na carta de 22 de julho, Mário faz uma consideração interessante sobre os poemas de Ovalle a que teve acesso:

ele caiu num haicaísmo do banal sutil e foi exagerando esse haicaísmo essa banalidade e essa sutileza a tal ponto que está agora nesse desastre de fazer poeminhas pequenininhos onde tudo o que não é banal fica por dentro, por dizer e o só o banal é o que está dito. Isso é perigo, Manu […], porque afinal de contas o que fica escrito o que fica objetivado mesmo é só o banal e não tem valor nenhum. Carece a gente raciocinar com coragem e decidir que diante da frase mais banal do homem mais banal com um pouco de imaginação a gente cria o mais perfeito dos poemas. Porém esse poema é interior e na frase mesmo ele não está.

Em outra missiva a Mário (29/07/1926), Bandeira escreve que andava pensando em Ovalle, no tom usual de admiração e pena: “Se ele tivesse capacidade para se realizar como ele é realmente, e integralmente!” Logo pergunta: “Você já reparou que os elementos que ele despreza eu tenho aproveitado?”.

Quais elementos seriam esses, não se sabe ao certo. Entretanto, os trechos acima podem nos dar uma chave (uma entre muitas outras) para ler o “Poema só para Jayme Ovalle”. Voltemos a ele:

POEMA SÓ PARA JAYME OVALLE

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

Primeiramente, é preciso relembrar o que o próprio Bandeira afirma em seu Itinerário de Pasárgada: o poema, incluído na edição de 1951 de Belo belo, tinha ficado um bom tempo de “quarentena”. “Costumo fazer isso, ou porque, depois de concluído o poema, não saiba avaliar se presta, ou porque no momento não tenha achado solução para alguma perplexidade”. Enfim, publicou-se. Podemos concluir, portanto, que o poeta o considerou “prestável”, mas a perplexidade continua – senão para Bandeira, ao menos para seus leitores.

À primeira leitura, o que distinguiria o “Poema só para Jayme Ovalle” dos poemas do próprio Ovalle, “poeminhas pequenininhos onde tudo o que não é banal fica por dentro, por dizer e o só o banal é o que está dito”, como avaliou Mário?” Teria sido essa a perplexidade com que Bandeira se defrontou ao compor sua pequena joia poético-narrativa ao amigo? Um poema só para Ovalle, mas também um poema só – solitário e único.

Entre as muitas entidades míticas do universo bandeiriano, Jayme Ovalle é o minotauro boêmio preso nos labirintos dos bares. É figura central não só pelo amor que o poeta lhe tinha, mas por encarnar uma tensão fundamental na obra de Manuel Bandeira: a banalidade, a coisa menor, o que podia ter sido e que não foi. Foi ele, e o poema é testemunho, que lhe ensinou algo que o próprio Ovalle era incapaz de fazer: a transformar essa matéria bruta, banal e rala, em poesia.

 

*Victor Heringer publicou os romances O amor dos homens avulsos e Glória (prêmio Jabuti 2013), além do volume de poemas automatógrafo.
  • TJ

    tem uma rua aqui na Ilha chamada Jayme Ovalle.
    e tu vai fazer falta, Victor!