Neste dia 10 de dezembro de 2020, comemora-se o centenário de Clarice Lispector. O Instituto Moreira Salles celebra vida e obra da escritora com o lançamento do novo site de Clarice. O correio IMS participa das comemorações reproduzindo, abaixo, uma crônica do livro A descoberta do mundo (1984), em que Clarice publica uma carta escrita por Fernanda Montenegro. A atriz evoca o mundo particular, delicado e misterioso da escritora, num ano de grandes dificuldades para o teatro brasileiro, marcado pela repressão da ditadura militar.

De São Paulo recebi uma carta de Fernanda Montenegro.

Telefonei-lhe pedindo licença para publicá-la. Foi dada:

“Clarice,

É com emoção que lhe escrevo, pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, educada, desesperada e guardada.

Ao ler meu nome, escrito por você¹, recebi um choque […]

Após ter o mandato de deputado federal cassado pelo AI-5, em 1968, o jornalista e político carioca Márcio Moreira Alves exilou-se no Chile, onde viveu durante dois anos. A saudade do Brasil e, principalmente, dos amigos está refletida nesta carta, enviada a Rubem Braga. Além de lembrar a amizade com o cronista Paulo Mendes Campos, Moreira Alves documenta as paisagens chilenas, com descrições típicas do realismo mágico latino-americano.

Rubem velho,

Achei que a única lembrança digna de quem já esvaziou oceanos de garrafas era um navio aprisionado. O Neruda tenta convencer-nos que esses navios são feitos à noite, por pequenos duendes carpinteiros. A verdade é menos mágica. Abre-se a garrafa com uma faca de diamante, coloca-se dentro o navio e fecha-se tudo com […]

A vida é um bocejar infinito

De: Álvares de Azevedo Para: Maria Luísa Silveira da Mota

Em 1848, o poeta paulistano Álvares de Azevedo deixa o Rio de Janeiro, onde morava sua família, e retorna à cidade de nascimento para concluir os estudos na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Aos 17 anos, o jovem não demonstra entusiasmo ao chegar à capital, que, naqueles tempos, era habitada por pouco menos de 15 mil pessoas. Em carta à sua mãe, Maria Luísa Silveira da Mota Azevedo, o autor de Lira dos vinte anos (1853) traça um perfil diferente da metrópole que conhecemos hoje.

São Paulo, 12 junho de 1849

Tenho a vista a sua de 3 de corrente que com muito prazer recebi.

Enquanto no Rio reluzem esses bailes a mil e uma noites, com toda a sua mania de fulgências e luzes, por aqui arrasta-se o narcótico e cínico baile da concórdia Paulistana.

Nunca vi lugar tão insípido, como hoje está São Paulo […]

Durante os anos 1930, os principais artistas brasileiros voltaram seus olhos para as injustiças sociais do país. A amizade entre Graciliano Ramos e Candido Portinari, por exemplo, foi marcada pelo tema, numa parceria intelectual refletida em robusta correspondência epistolar. Na carta a seguir, o autor de “Vidas secas” (1938) propõe uma reflexão sobre o papel da dor no fazer artístico. A obra de Graciliano Ramos estará presente na próxima edição do Clube de Leitura do Instituto Moreira Salles, que começa no mês de julho próximo.

Rio, 18 de Fevereiro de 1946

Do site graciliano.com.br[1]

Caríssimo Portinari:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da […]

Sua mãe, Clarice

De: Clarice Lispector Para: Pedro Gurgel Valente

Dois anos antes de morrer, Clarice Lispector escreve uma carta afetuosa ao filho mais velho, Pedro Gurgel Valente, sobre o bem-estar que sentia ao pintar. Aqui, reúnem-se duas facetas de Clarice: a maternidade e o fascínio pelas artes plásticas. Dentre os vinte quadros pintados pela escritora, dois fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles e estarão, em breve, na exposição dedicada a Clarice no ano de seu centenário.

Rio, 25 de julho de 1975

Pedro, meu querido filho, como vai?

Lembre-se ainda que eu às vezes pintava quadros, e você também? Pois agora comprei tintas de acrílico, pincéis e telas – é uma libertação pintar. Liberta mais do que escrever.

 

            Sua mãe


 

Neste vídeo de 2014, Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, […]