Moradora de Berna, na Suíça, desde abril de 1946, quando acompanhou o marido, Maury Gurgel Valente, em função diplomática, Clarice Lispector teve, dentre seus correspondentes assíduos, o amigo Lúcio Cardoso, por quem nutria profunda admiração. Como ele se demorasse na resposta às suas cartas, ela lhe enviou esta, em que não esconde seu desapontamento.  

Berna, 31 [de] outubro [de] 1946

Alô, Lúcio,

isto é apenas pra perguntar como você vai.

O quê? ah, estou bem, obrigada.

Sim, com frio também, obrigada.

O quê? ah, sim, mesmo no outono já se tem um grau abaixo de zero.

Que eu vou morrer de frio? Ah, sim, você talvez tenha razão. Que você tem me escrito muito? sim, […]

Vibrando com o talento da amiga Lygia Fagundes Telles, Erico Verissimo, nesta carta, não esconde seu encantamento com a coletânea de contos O jardim selvagem, publicada em 1965. A autora enviara o exemplar para os Estados Unidos, onde o romancista gaúcho visitava a filha, o genro e os netos, que moravam em Alexandria, no Estado americano da Virginia.

Alexandria, 6 de fevereiro de 1966

Lygia, querida amiga,

“Não há nada melhor que uma carta de Lygia… nem igual” – disse eu à Mafalda, quando recebi sua carta. Mas, dias mais tarde, ao receber seu livro, fiz um acréscimo: “… só um livro da Lygia.” Aconteceu uma coisa engraçadíssima. O carteiro bateu na porta, a Mafalda desceu, recebeu o pacote […]

“Soberba página” – classificou Manuel Bandeira esta carta de Gonçalves Dias sobre a grandiosidade da natureza amazônica. Foi escrita quando o poeta de “I-Juca Pirama” chegou a Manaus durante a visita que fez à cidade como etnógrafo da Comissão Científica de Exploração, em que atuou entre 1859 e 1862. Para Bandeira, esta “é a melhor prosa que nos deixou o poeta”, e comparou-a às mais altas páginas de José de Alencar, com “antessabor das de Euclides da Cunha”.

Manaus, 20 de dezembro de 1861

Principio agora com uma série de cartas,[1] tão longa cada uma delas que o nosso correio, segundo desconfio, não tas deixará chegar às mãos senão por intermitências. Se te chegarem constantemente, é que ele o fará de velhaco, pelo gosto de me dar um desmentido perante o respei­tável, tão pouco respeitado. Ainda bem […]

A viagem que Lucio Costa fez à Europa em 1926 era, segundo ele próprio, menos para estudo do que “por motivos sentimentais insolúveis”. Ainda assim, a análise que faz do caráter do povo italiano e a descrição de cidades como Veneza e Florença resultam em prosa das mais sedutoras.

Florença, 22 de dezembro de 1926

Queridos,

Já desde Paris viajo sem esperança de notícias. Assim que chegar a Roma mandarei vir do consulado toda a minha correspondência. Espero então desabafar num grande maço de cartas toda essa grande saudade que de quando em quando se faz sentir.

Há vários dias que estou em Florença, em pleno coração da Itália. Nesta […]

Em 1950, o farmacêutico José Freire Silva mudou-se, com a família, da pacata cidade mineira de Boa Esperança para o Rio de Janeiro, então capital da República. A mudança tinha como objetivo dar continuidade aos estudos de piano do filho, então com seis anos. Escrita em páginas do livro de contas da Farmácia Freire Silva, de sua propriedade, o pai de Nelson Freire registrou a decisão nesta carta que seria lida pelo cineasta Eduardo Coutinho no documentário Nelson Freire, de João Moreira Salles.  

Boa Esperança, 21 de julho de 1950

Meu filhinho,

Ao tomar a decisão de transferir-me com toda a nossa família para a capital da República, julguei oportuno registrar no teu álbum de reminiscências alguns fatos que intimamente dizem respeito à tua existência para que sirvam de orientação para tua biografia, isso porque a nossa mudança se faz unicamente por tua causa. Sem […]