O amigo que quisesse um boa conversa, certamente pensaria logo em Otto Lara Resende. Foi o que aconteceu com o crítico teatral Sábato Magaldi que, sob efeito da boa notícia de ter recebido o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, mas impossibilitado de uma conversa face a face, escreve esta carta ao amigo.   

Aix, 31 de abril de 1990

Meu caro Otto,

Amanhã é seu aniversário e como não terei oportunidade de telefonar a você (pretendemos sair de Aix), mando meu abraço epistolar, que só será recebido mais tarde. Morro de saudades de um bom papo. A gente se encontrará, nas minhas férias?

O Lêdo me comunicou que a Academia me atribuiu o Prêmio […]

No exílio entre 1971 e 1986, o dramaturgo Augusto Boal se correspondeu com uma série de amigos que lhe davam notícias da situação política e cultural do Brasil sob o regime militar. Todo um panorama do universo artístico de 1978 é vivamente descrito, nesta carta, pelo ator e diretor Fernando Peixoto, ligado ao Teatro Oficina e ao Teatro de Arena, a que Boal é visceralmente  ligado. Parte dessa correspondência integra a exposição Meus caros amigos – Augusto Boal – cartas do exílio, em cartaz no IMS de 4 de junho a 21 de agosto de 2016.

São Paulo, 4 de março [de 1978]

Boal,

Acabo de escrever 26 laudas sobre você! Misturei Liège e Paris, num longo artigo-reportagem para a revista do Ênio [Silveira]. O Milagre[1] vai sair breve. Escrevi um projeto da edição do teu teatro. Não encontrei com ele pessoalmente, mas me parece que a coisa sai. Sei que ele vai editar também o […]

A atuação de Decio de Almeida Prado na coluna de crítica teatral em O Estado de S. Paulo mudou a feição do gênero, mostrou-se fundamental para a formação de um novo tipo de público, além de ter sido respeitada por toda uma geração de profissionais no país, entre os quais o ator Gianfrancesco Guarnieri e Cecília Thompson, jornalista e atriz com quem foi casado. Decio reuniu alguns de seus textos em Teatro em progresso, cujas críticas às peças de Guarnieri motivaram esta carta de Cecília em retrospectiva de um período importante para o teatro brasileiro.

São Paulo, 10 de dezembro de 1972

Prezado Decio,

Domingo à tarde. Reli, comovidamente, durante duas horas, todas as suas críticas, em Teatro em progresso, às peças de Guarnieri. E ficou forte a necessidade de lhe escrever: para dizer o quanto essas horas foram importantes, o quanto me devolveram um “tom”, uma convivência, um diálogo há muito perdidos. Também no plano pessoal: […]

Paulo Autran, cujos oito anos de morte se completam no dia 12 de outubro deste 2015, já havia atuado em quatro montagens diferentes da peça Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, quando a apresentou em São Paulo, em 1991, como ator e diretor. Na plateia estava a crítica teatral Maria Lúcia Pereira, que redigiu um texto desfavorável sobre a peça para O Estado de S. Paulo, periódico em que substituiria Decio de Almeida Prado a partir de 1992. A publicação da crítica estimulou Autran a escrever esta carta.

São Paulo, 22 de julho de 1991

Maria Lúcia,

Como nunca li outra crítica sua, acredito que você seja principiante nessa função. No sentido de ajudá-la envio-lhe estas dicas para trabalhos futuros:

1 – O crítico precisa gostar de teatro, é imprescindível, claro, mas deve também gostar de ir ao teatro e ver espetáculos de teatro, o que é muito raro.

2 […]

Preso e torturado durante o regime militar que vigorou de 1964 a 1985, o teatrólogo Augusto Boal exilou-se na Argentina, terra de sua mulher, a psicanalista Cecília Boal. Nesse período, recebeu convite da Secretaria de Cultura de Lisboa para integrar o núcleo de professores do governo português. A renovação de seu passaporte, porém, tinha sido recusada pelo governo brasileiro e só neste ano de 1976 aconteceria o julgamento que lhe permitiria, com o documento, mudar-se para Lisboa.

Buenos Aires, 3 de maio de 1976

Chico,

Ando nervoso, ansioso, querendo que esse julgamento recomece de uma vez, querendo ganhar de goleada, 10 x 2, mas aceitando um 7 x 6 e não querendo nem pensar no contrário. Fico com os olhos grudados no telefone esperando um chamado de Brasília gritando “Ganhamos!”. Vai ser hoje, amanhã, quando? Vamos ver.

Nessa fulminante […]