Joaquim Nabuco e Eufrásia Leite protagonizaram um dos mais célebres romances do Brasil no século XIX. O relacionamento durou quatorze anos, até 1887, período em que se corresponderam, apesar dos incontáveis rompimentos a que se seguiam doces reconciliações. Poucas são as cartas que restaram desse período. Dois anos depois da separação, Nabuco se casou com Evelina Ribeiro. Eufrásia jamais se casaria.

Dakar [Senegal], bordo do Congo, 31 de dezembro de 1885

Não imagina que tristeza, que saudades e que arrependimento de ter deixado o Brasil. Quando penso que em janeiro poderíamos estar juntos, ao menos poderia ter notícias suas, de sua eleição,[1] saber o que se passa ou o que vai fazer, e não estar inquieta como estou, temendo que lhe aconteça alguma coisa, […]

Entre a solidão no momento de deixar Paris, onde assumira em 1963 o posto diplomático de delegado do Brasil junto à UNESCO, e os planos para sua chegada ao Brasil, Vinicius de Moraes escreve a Tom Jobim sobre o estado de espírito que o deixa inquieto.

Porto do Havre [França], 7 de setembro de 1964

Tomzinho querido,

Estou aqui num quarto de hotel que dá para uma praça que dá para toda a solidão do mundo. São dez horas da noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais tris­te do que eu. E, como sempre nestas horas, escrevo para […]

Durante a revolução constitucionalista de 1932, contra o governo do então presidente Getúlio Vargas, o jornalista Júlio de Mesquita Filho lutou no front, de onde, de 9 de julho a 2 de outubro, se correspondia com a mulher, Marina. Apaixonada, ela enfrenta com coragem e bom humor a ausência do marido, sem deixar de se revoltar pela falta que ele lhe faz.

São Paulo, 14 de julho de 1932

Meu Julinho,

Depois da conversa com você, encontrei na porta da estação Marcos Ribeiro dos Santos, que amavel­mente se ofereceu para qualquer coisa que eu precisasse lhe mandar. Aproveitei o oferecimento no ar e já vai aqui esta mal traçada missiva e roupas, escova de dentes, pasta etc., tudo de que você precisa por aí. […]

Até onde pode ir o processo de criação de uma obra? Com Murilo Rubião, a gestação de um conto pode durar pelo menos 15 anos – é o que mostra esta carta a Otto Lara Resende, com quem comenta “Teleco, o coelhinho”, incluído no livro Os dragões e outros contos, de 1965. 

Belo Horizonte, 30 de março de 1950

Velho Otto,

Não pense em possíveis ingratidões, que elas não existem. Toda mudança envolve ambientação nova, novos compromissos. E sendo retorno, temos que reatar velhos amores, reajustar nossa máquina bélica para outros empreendi­mentos sentimentais.

Não foi o que fiz. Deixei-me embalar por essa inefável monotonia belorizontina, que pode irritar os menos avisados, mas que tanto […]

Poeta sexagenário em 1962, Carlos Drummond de Andrade publicou nesse ano o livro Lição de coisas, no qual pratica “a violação e a desintegração da palavra”, segundo escreveu o próprio poeta. Na obra, incluiu o soneto “Carta”, endereçado à mãe, Julieta Augusta Drummond de Andrade, com quem nunca deixou de se corresponder desde que veio morar no Rio de Janeiro em 1934. Também a ela dedicou o poema “Para sempre”, publicado nesse mesmo livro.

S.l., s.d.

Carta

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde […]