No ano em que seria instaurado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), o Teatro de Arena estreava a Primeira Feira Paulista de Opinião, um espetáculo composto por seis peças escritas pelos mais importantes dramaturgos brasileiros à época, como Augusto Boal e Plínio Marcos. Às vésperas da estreia, a Censura ainda não havia liberado a montagem, o que motiva esta carta-manifesto de Cacilda Becker ao então diretor-geral da Polícia Federal do Brasil, general José Bretas Cupertino. O grupo teatral foi notificado por Brasília, que exigiu o corte de cerca de 80 trechos. Como um ato de “desobediência civil” à ditadura, os artistas decidem executar a Feira Paulista de Opinião na íntegra.

Ilmo. Senhor
General José Bretas Cupertino
MD Chefe do Departamento de Polícia Federal

O Teatro de Arena de São Paulo sempre se caracterizou, nestes últimos quinze anos, pelo constante trabalho de pesquisa em todos os setores da arte teatral. Foram notáveis suas contribuições no terreno da interpretação, da encenação e sobretudo da dramaturgia […]

No primeiro dia da turnê que Elis Regina fez para o lançamento do álbum Transversal do Tempo, em Recife, dedicou o show a Edival Nunes da Silva, o Cajá, estudante pernambucano de sociologia que fora preso e estava sob tortura dos militares. Como a polícia local ameaçou cancelar as apresentações, Elis, no segundo dia, foi menos explícita na homenagem ao jovem, mas reverenciou-o de forma criativa: entrou no palco sem Dudu Portes, o baterista da banda, e alegou não poder fazer o show sem o integrante, que estava sentado em uma das poltronas do Teatro Santa Isabel, camuflado no meio do público. A cena foi a deixa para Elis, ousada, dizer: “Vem cá, já. Não posso começar o espetáculo sem você”. Segundo o próprio Cajá, “o público logo entendeu o recado e aplaudiu”. Como não conseguiu visitar o estudante na prisão, Elis deixou esta carta em papel timbrado do hotel em que estava hospedada.

Cajá

Estou por aqui. Por sua terra forte e maravilhosa. Sabidamente mais que eu. Me desculpe a ausência. Embora ela seja somente física. E determinada por uma covardia estúpida bem sei. Mas que abrigada no meu interior, me impede gestos maiores e mais amplos. Isso tudo me faz sentir extremamente inferior perto de pessoa como […]

Munido do seu usual sarcasmo, Oswald de Andrade escreveu em 1946 uma crônica em que relatava um episódio vivido em sua infância: o espancamento de uma mulher negra em frente à janela de casa. A experiência levou o escritor paulista a abandonar o diploma de bacharel em Direito e criticar, no artigo, a complacência dos advogados com as injustiças da sociedade brasileira. O texto não passou sem resposta. Cultor da representação de advogado defensor dos oprimidos, Sobral Pinto enviou a Oswald esta carta em favor da classe que, frente à opinião pública, ele representava melhor do que ninguém.  Sobral na verdade protegia seu próprio legado, marcado pela ideia de advocacia como missão pública de defesa da sociedade e, sobretudo, dos mais pobres.

Rio de Janeiro, 26 de abril de 1946

Sr. Oswald de Andrade,

Recebi, nesta heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde há quase 30 anos vegeto como advogado, o seu “Telefonema”, transmitido pelas linhas do Correio da Manhã de terça-feira, 23 do corrente, através da estação da página 2 e do número […]

Um país sob o recente comando do general João Batista Figueiredo – último militar a governar o Brasil antes da abertura política –, o retorno de exilados pela Lei da Anistia promulgada em 1979 e o fim do bipartidarismo político: este é o cenário nacional em que vivia Henfil ao escrever à Dona Maria, sua mãe. Com refinado humor, aponta a falta de esperança e o desânimo coletivo instalados no ar no início daquele ano de 1980. Pai do Fradim e da Graúna, dentre outros personagens clássicos do cartum brasileiro, manteria a coluna “Cartas da mãe” na revista IstoÉ até 1984.

São Paulo, 9 de janeiro de 1980

Mãe,

Sem piadinha. Vou me abrir.

Eu tenho acordado de uns seis meses para cá sem ânimo, sem esperança, sem vontade de brilhar, de lutar, de mudar a Lucinha,[1] o Brasil, o mundo, o universo!

Muitas noites eu não durmo, assombrado. Pensando assim: tô ficando velho, […]

Depois de ter publicado a Primeira epístola ao marechal, de autoria do bravo editor Ênio Silveira, o Correio IMS divulga esta Segunda epístola, ambas dirigidas ao então presidente do Brasil, marechal Castello Branco, e publicadas sob a forma de editorial na Revista Civilização Brasileira, lançada por Ênio Silveira em 1965, com o nome da editora sob seu comando. Não seria a detenção de Ênio quatro vezes seguidas, entre 1964 e 1969, a impedi-lo de fazer da revista um instrumento de combate à censura, sobretudo no campo das artes – é o que provam estas duas cartas, ambas documentos de extraordinária lucidez, vigor intelectual e elegância estilística.

Senhor marechal:

Amigos cuja opinião prezo e respeito criticaram-me severamente pelo fato de lhe ter dito, na primeira epístola, que acreditava estar o senhor tão interessado quanto eu na felicidade da pátria, embora ainda lhe faltasse compreender que suas altas funções atuais nunca seriam exercidas em plenitude se não mantivesse diálogo vivo e constante com […]