Poeta sexagenário em 1962, Carlos Drummond de Andrade publicou nesse ano o livro Lição de coisas, no qual pratica “a violação e a desintegração da palavra”, segundo escreveu o próprio poeta. Na obra, incluiu o soneto “Carta”, endereçado à mãe, Julieta Augusta Drummond de Andrade, com quem nunca deixou de se corresponder desde que veio morar no Rio de Janeiro em 1934. Também a ela dedicou o poema “Para sempre”, publicado nesse mesmo livro.

S.l., s.d.

Carta

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde […]

Neste notável bilhete, o poeta Carlos Drummond de Andrade, colaborador assíduo do “Suplemento Literário” de O Estado de S. Paulo, dá ao então editor Decio de Almeida Prado a liberdade de fazer uma alteração em seu poema “Os materiais da vida”. Os cuidados de Drummond com o emprego da palavra “coitos” nesse poema, e do verbo “copular” em outro, foram estudados por Mariana Quadros em “Cartas de estimação de Carlos Drummond de Andrade”. A palavra seria mantida na versão publicada em A vida passada a limpo (1959).

Rio [de Janeiro], 22 de setembro de 1959

Meu caro Decio de Almeida Prado,

Você encontrará junto dois poemas que os leitores do seu suplemento não poderão achar excessivamente compridos. No segundo, a palavra coitos, se porventura parecer escandalosa em jornal, poderá ser substituída por beijos, fica a seu critério. E daqui lhe manda um abraço afetuoso, com a estima de sempre, o

[…]

“Ana Cristina começou a fazer poemas antes de saber ler e escrever”, afirmou a escritora Lúcia Benedetti sobre o talento precoce da mais destacada poeta da chamada “poesia marginal”, e homenageada da Flip 2016. Em 1962, Ana Cristina Cesar já sabia e gostava de escrever. É o que comprova esta carta, inédita até hoje, escrita à sua tia Nídia, apelido de Tirza, irmã de seu pai, que morou em Chicago durante muitos anos e com quem a poeta se correspondia.

[Mauá, Rio de Janeiro], 7 de julho de 1962

Querida tia Nídia:

Hoje estou realmente com vontade de escrever. Parece que não recebeu a minha carta e a do Flavio.

Estou em Mauá. A solidão, e o repouso, o silêncio daqui, é tudo uma beleza. Meus pais fazem hoje 12-1 anos de casados.[1] Coitados, é com pena que eu digo que eles […]

Os 80 anos de nascimento de Manuel Bandeira foram largamente comemorados em todo o país. Decio de Almeida Prado, que, 1966, era diretor do “Suplemento Literário” de O Estado de S. Paulo, cargo que exerceu de 1956 a 1967, quis homenagear o Poeta de Pasárgada com um poema que encomendou a outro poeta pernambucano: João Cabral de Melo Neto. Mas o autor de “Morte e vida severina” explica, nesta carta, o porquê de não poder aceitar a tarefa.

Berna, 25 de março de 1966

Meu caro Decio,

Muito honrado com seu telegrama encomendando um poema para o número do suplemento sobre o Manuel.[1] O poeta merece todos os poemas (bons) e o amigo também (para não falar no primo e no conterrâneo). Acontece porém que ando completamente esgotado para qualquer trabalho criador. Acabo de terminar um livro […]

“Soberba página” – classificou Manuel Bandeira esta carta de Gonçalves Dias sobre a grandiosidade da natureza amazônica. Foi escrita quando o poeta de “I-Juca Pirama” chegou a Manaus durante a visita que fez à cidade como etnógrafo da Comissão Científica de Exploração, em que atuou entre 1859 e 1862. Para Bandeira, esta “é a melhor prosa que nos deixou o poeta”, e comparou-a às mais altas páginas de José de Alencar, com “antessabor das de Euclides da Cunha”.

Manaus, 20 de dezembro de 1861

Principio agora com uma série de cartas,[1] tão longa cada uma delas que o nosso correio, segundo desconfio, não tas deixará chegar às mãos senão por intermitências. Se te chegarem constantemente, é que ele o fará de velhaco, pelo gosto de me dar um desmentido perante o respei­tável, tão pouco respeitado. Ainda bem […]