Preso e torturado durante o regime militar que vigorou de 1964 a 1985, o teatrólogo Augusto Boal exilou-se na Argentina, terra de sua mulher, a psicanalista Cecília Boal. Nesse período, recebeu convite da Secretaria de Cultura de Lisboa para integrar o núcleo de professores do governo português. A renovação de seu passaporte, porém, tinha sido recusada pelo governo brasileiro e só neste ano de 1976 aconteceria o julgamento que lhe permitiria, com o documento, mudar-se para Lisboa.

Buenos Aires, 3 de maio de 1976

Chico,

Ando nervoso, ansioso, querendo que esse julgamento recomece de uma vez, querendo ganhar de goleada, 10 x 2, mas aceitando um 7 x 6 e não querendo nem pensar no contrário. Fico com os olhos grudados no telefone esperando um chamado de Brasília gritando “Ganhamos!”. Vai ser hoje, amanhã, quando? Vamos ver.

Nessa fulminante […]

Aproveitando a melodia de um choro de autoria de Francis Hime, Chico Buarque escreveu a letra desta canção/carta dando notícias do Brasil ao amigo Augusto Boal, que estava no exílio, em Lisboa, durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Enviou-a em fita K7 e a gravaria no elepê Meus caros amigos, de 1976, com a participação da flauta de Altamiro Carrilho, do clarinete de Abel Ferreira, do bandolim de Joel Nascimento e, mais uma vez, com Francis Hime ao piano.

Rio de Janeiro, 1976

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu […]

A troca de cartas entre Vinicius de Moraes e Chico Buarque a respeito de Valsinha mostra como foi a parceria para essa canção que encantou o público. Gravada por Chico no elepê Construção, de 1971, recebeu, no mesmo ano, as interpretações de Ângela Maria, no elepê Ângela, e do grupo MPB-4 em De palavra… em palavra…

Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo!

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três ideias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio morava […]

Por ocasião do nascimento de Sílvia Buarque de Hollanda, a primeira filha de Chico Buarque e Marieta Severo, em Roma, em 28 de março de 1969, o flamenguista Cyro mandou uma camisa do Flamengo de presente à recém-nascida. O pai da menina, torcedor do Fluminense, agradeceu com este samba/carta que gravaria em seu disco Chico Buarque de Hollanda nº 4, de 1970. Nesse mesmo ano, o próprio Cyro regravou a canção em seu elepê Alô, jovens, tio Cyro Monteiro canta sambas dos sobrinhos. Gravações à parte, Cyro venceu: Sílvia tornou-se torcedora do Flamengo.

Roma, 1970

Amigo Cyro
Muito te admiro
O meu chapéu te tiro
Muito humildemente
Minha petiz
Agradece a camisa
Que lhe deste à guisa
De gentil presente
Mas caro nego
Um pano rubro-negro
É presente de grego
Não de um bom irmão
Nós separados
[…]

Na histórica edição do III Festival Internacional da Canção, realizado em 29 de setembro de 1968, a canção favorita do público era Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. A vencedora, no entanto, foi Sabiá, que tem letra de Chico Buarque e música de Tom Jobim. Como Chico estava em Veneza, Tom recebeu sozinho a vaia no final da fase brasileira, e em seguida telegrafou ao parceiro reivindicando sua presença. Chico atendeu o pedido e recebeu, ao lado de Tom, a vaia na grande final da fase internacional.

Rio de Janeiro, 5 de outubro de 1968

Venha urgente. Presença imprescindível. Temos que estar juntos. Preciso de você.

Tom Jobim

Nota: Telegrama que o Tom me mandou quando tomou (sozinho) a vaia do Sabiá

Achados. Organização de Caique Botkay. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 51.