Aos 62 anos, o já consagrado Drummond relembra episódios da infância vividos com o pai Carlos de Paula Andrade, presente em alguns de seus poemas e crônicas drummondianas. Nesta carta/crônica, publicada no jornal carioca Correio da Manhã, onde o poeta e cronista colaborou três vezes por semana durante 15 anos, ele recorda afetuosamente uma preciosa lição do pai que não pôde ser cumprida: “o essencial em duas palavras”.

 [Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 1964]

Às vezes o senhor me chamava para seu secretário, e isso me enchia de orgulho. Eu pequeno, o senhor tão grande — maior que um homem comum aos olhos de qualquer menino. Tudo no lugar era pequeno e doméstico, e o senhor, sim, era grande — começa […]

Grande foi a tarefa de Jacob do Bandolim ao gravar a histórica suíte Retratos, com regência de Radamés Gnattali, autor da composição a ele, Jacob, dedicada e comentada por Bia Paes Leme na Rádio Batuta, do IMS. Toda a gratidão e devoção do bandolinista homenageado ressaltam nesta carta ao maestro.

S.l., 23 de outubro de 1964

Meu caro Radamés,

Antes de Retratos,[1] eu vivia reclamando: “É pre­ciso ensaiar…”. E a coisa ficava por aí: ensaios e mais ensaios.

Hoje minha cantilena é outra: “Mais do que ensaiar, é necessário estudar!”. E estou estudando. Meus rapazes também (o pandeirista já não fala em paradas: “Seu Jacob! O senhor aí quer […]

Na noite da votação das Diretas Já, movimento civil que exigia eleições presidenciais diretas no Brasil, a atriz Fernanda Montenegro escrevia ao amigo e dramaturgo Augusto Boal, com quem manteve constante correspondência durante o período em que ele esteve no exílio. Antes de enviá-la, Fernanda já podia dar a má notícia do resultado, como se pode ouvir na leitura em vídeo ao final da carta.[1]

Rio [de Janeiro], 25 de abril de 1984

Querido Boal,

Acabo de receber sua carta, dizendo que você chega breve.

Hoje, no Brasil, vivemos uma noite especial, pois estão sendo votadas as Diretas no Congresso, e tudo pode acontecer. Multidões estão de plantão em todo o país. A votação vai pela noite.

Boal, tudo mudou nos planos do Theatro Municipal. Tatiana saiu. O […]

Filho da estilista Zuzu Angel e integrante do MR-8, Stuart Angel foi preso, torturado e assassinado por militares da Aeronáutica em 14 de maio de 1971. Seu desaparecimento levou Zuzu a iniciar campanha contra o regime militar, que incluía bilhetes como este enviado a Marieta Severo e Chico Buarque. Uma semana antes de sua morte, no dia 14 de abril de 1976, entregou a amigos, mais uma vez a Chico e Marieta, declaração em que denunciava o risco que corria. A história virou enredo do filme Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, com Patrícia Pillar no papel da estilista.

Rio [de Janeiro], 13 de maio de 1973

Marieta e Chico,

Amanhã, dia 14 de maio, completam dois anos que meu filho Stuart Angel foi assassinado pelo governo brasileiro. Depois de barbaramente torturado foi amarrado a um jeep da Aeronáutica e arrastado. Não me entregaram o corpo.

Zuzu Angel


Declaração

Rio […]

Integrante do grupo MR-8, que travou luta armada contra o regime militar, o estudante Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel, tinha apenas 25 anos quando foi preso, torturado e assassinado por militares da Aeronáutica no dia 14 de maio de 1971. Três meses depois, Zuzu escreveu esta carta à mulher de um general, Terezinha. Stuart estava morto, mas ainda tido como desaparecido pela família.

Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1971

Terezinha,

Agradeço a sua bem-intencionada carta, mas gostaria que você compreendesse que a sua expressão – “Todos vão para lá, não interessa o que tenham feito ou como tenham vivido” – me magoou e feriu profundamente.

Quero que você saiba que nem ao menos tenho certeza se meu filho está morto, pois não me entregaram […]