Os bastidores da transferência de Cyro dos Anjos, que, por manobras bem-sucedias no Itamaraty, deixava de reger a cadeira de Estudos Brasileiros na Universidade do México para assumir a mesma função em Lisboa ocupam a primeira parte desta carta. Na segunda, o verso drummondiano “a ausência é um estar em mim” ganha força quando o poeta passa a escrever sobre suas saudades depois de assistir à exumação dos ossos da mãe.

Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1954

Em primeiro lugar, venha de lá um abraço pelo súbito imprevisto e feliz resultado do affaire Lisboa, que assinala a primeira e modesta vitória de um mineiro sobre a grei nortista, nestes 450 anos de vida brasileira. Só não lhe telegrafei transmitindo a grata notícia porque soube que o Chermont[1] já o fizera. […]

O cotidiano de Luiz Carlos Prestes na prisão pode ser conhecido nesta e em outras cartas graças à campanha para libertação dos presos políticos, liderada por sua mãe, Leocadia Prestes, que teve ganhos importantes como a permissão para se corresponder com o filho. Lendo esta carta, é possível, hoje, saber das aflições e saudades do líder comunista, que seria solto apenas em 1945 com a anistia.

Rio [de Janeiro], 28 de dezembro de 1937

Minha querida mamãe,

Se receberes estas linhas, como espero, a tua alegria será tão grande quanto a minha, desde ontem. Imagina tu, querida mãe, que as tuas cartas me estão sendo novamente entregues e tudo me faz crer que, afinal, se restabelece a regularidade de nossa correspondência. No dia 22 recebi as tuas linhas de […]

De Berna, na Suíça, onde acompanhava o marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, a escritora Clarice Lispector envia esta carta carinhosa à irmã Tania Kaufmann em que fala, dentre outras coisas, da gravidez de seu primeiro filho, Pedro, e da saudade que sente. A carta integra conjunto de cerca de quarenta missivas inéditas do acervo da escritora, sob a guarda do IMS.

Berna, 21 [de] fevereiro [de] 1948

Tania, minha filhinha querida, minha bonequinha,

Recebi sua carta com os retratos de Márcia[1] – um pouco atrasado porque estava em Saint-Moritz. Quando abri e vi Marcinha, meu coração se aqueceu de carinho. Nunca vi criança mais bonita! Como há muito tempo não via os retratos, no fim eu já me perguntava se […]

Protagonistas de uma história de amor e de política, Olga Benário Prestes e Luiz Carlos Prestes casaram-se e continuaram a cumprir a missão da Internacional Comunista no Rio de Janeiro. Presa e depois extradita para a Alemanha, Olga deu à luz Anita Leocádia numa prisão em Berlim. De lá, escreveu esta carta ao marido, preso no Rio, dando notícias de Pom-Pom, apelido da filha, que seria libertada em 1938.

Berlim, 9 de agosto de 1937

Carlos, meu querido,

Conforme o prometido, quero escrever-te. Inicialmente, desejo falar-te da permissão que obtive para conversar com a madame Ewert.[1] Por fim as administrações cederam às mesmas solicitações repetidas e, assim, pude revê-la pela primeira vez após dez meses e mostrar-lhe nossa filhinha. Compreenderás que, após todos os sofrimentos comuns, eu a […]

Casada com o diplomata Maury Gurgel Valente desde 1943, Clarice Lispector acompanhou-o em todos os postos mundo afora. Na capital suíça ela deu à luz seu primeiro filho, Pedro, que de tão bonito o chamou também de Gildo, evocando a beleza de Rita Hayworth no filme Gilda, de 1946.

Berna, 11 [de] setembro [de] 1948

Minhas irmãzinhas queridas,

Vocês devem ter recebido o telegrama de Maury – Pedro nasceu ontem, dia 10, às 7h30 da manhã. Estou escrevendo na madrugada de 11, porque não posso dormir direito. Estamos muito contentes, Maury e eu: a criança é sadia, fortona, pesa uns três quilos, seiscentos – por enquanto é a cara do […]