Poeta sexagenário em 1962, Carlos Drummond de Andrade publicou nesse ano o livro Lição de coisas, no qual pratica “a violação e a desintegração da palavra”, segundo escreveu o próprio poeta. Na obra, incluiu o soneto “Carta”, endereçado à mãe, Julieta Augusta Drummond de Andrade, com quem nunca deixou de se corresponder desde que veio morar no Rio de Janeiro em 1934. Também a ela dedicou o poema “Para sempre”, publicado nesse mesmo livro.

S.l., s.d.

Carta

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde […]

No dia 5 de março de 1936, no Rio de Janeiro, Luiz Carlos Prestes, líder do movimento antifascista de 1935, e sua mulher, Olga Benário Prestes, foram encarcerados. De Paris, a mãe do revolucionário encabeçou um movimento de libertação dos presos políticos no Brasil. A iniciativa, bem-sucedida, possibilitou sua comunicação com o filho, por correspondência, e, dois anos depois, a libertação da neta, Anita Leocádia, nascida numa prisão da Alemanha para onde Olga fora deportada.  

Paris, 31 de julho de 1937

Meu querido filho,

O meu mais ardente desejo é que estas linhas te encontrem com saúde. Tenho presente tua boa carta datada de 16 do corrente e que aqui chegou com dez dias de viagem, o que não sei como explicar, porque veio pelo avião. Recebi também a que escreveste à nossa querida Olga.

Lamento […]

Apelos não faltaram da parte de madre Maria José de Jesus para que seu pai, o historiador Capistrano de Abreu, se convertesse ao catolicismo. Tampouco precisou de mais humildade, pois a tinha de sobra, para implorar o perdão do pai, que nunca aceitaria a escolha da filha, como mostra esta carta escrita dez anos depois que ela fez os votos de carmelita descalça no Convento de Santa Teresa.

Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1922

Meu pai muito querido,

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Foi hoje, há onze anos, que pela última vez lhe beijei as mãos pedindo-lhe perdão dos inumeráveis desgostos que lhe dei com minhas faltas. Foi hoje: grande dia! Dia do triunfo da graça, da manifestação da Onipotência e da Misericórdia de Deus. Creia, meu pai, […]

“Ana Cristina começou a fazer poemas antes de saber ler e escrever”, afirmou a escritora Lúcia Benedetti sobre o talento precoce da mais destacada poeta da chamada “poesia marginal”, e homenageada da Flip 2016. Em 1962, Ana Cristina Cesar já sabia e gostava de escrever. É o que comprova esta carta, inédita até hoje, escrita à sua tia Nídia, apelido de Tirza, irmã de seu pai, que morou em Chicago durante muitos anos e com quem a poeta se correspondia.

[Mauá, Rio de Janeiro], 7 de julho de 1962

Querida tia Nídia:

Hoje estou realmente com vontade de escrever. Parece que não recebeu a minha carta e a do Flavio.

Estou em Mauá. A solidão, e o repouso, o silêncio daqui, é tudo uma beleza. Meus pais fazem hoje 12-1 anos de casados.[1] Coitados, é com pena que eu digo que eles […]