Depois de ter publicado a Primeira epístola ao marechal, de autoria do bravo editor Ênio Silveira, o Correio IMS divulga esta Segunda epístola, ambas dirigidas ao então presidente do Brasil, marechal Castello Branco, e publicadas sob a forma de editorial na Revista Civilização Brasileira, lançada por Ênio Silveira em 1965, com o nome da editora sob seu comando. Não seria a detenção de Ênio quatro vezes seguidas, entre 1964 e 1969, a impedi-lo de fazer da revista um instrumento de combate à censura, sobretudo no campo das artes – é o que provam estas duas cartas, ambas documentos de extraordinária lucidez, vigor intelectual e elegância estilística.

Senhor marechal:

Amigos cuja opinião prezo e respeito criticaram-me severamente pelo fato de lhe ter dito, na primeira epístola, que acreditava estar o senhor tão interessado quanto eu na felicidade da pátria, embora ainda lhe faltasse compreender que suas altas funções atuais nunca seriam exercidas em plenitude se não mantivesse diálogo vivo e constante com […]

Morador de Londres desde 1968, o jornalista Ivan Lessa nunca se desligou dos amigos brasileiros. Na capital londrina, onde passara a colaborar na British Broadcasting Corporation, a BBC de Londres, não deixava de receber cartas como esta, de Millôr Fernandes, que, em estilo consagrado, dá notícias do que acontecia no Brasil durante o truculento governo Médici.

Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1970

Meu amor I! Vão, lê essa:

Eu sei que a hora não está para trocadilhos mas, que fazer, como diziam Lenine e Ignazio Silone?[1] Com Francis preso eu fico com a responsabilidade da cultura, com o Tarso preso eu fico também com a irresponsabilidade da incultura, com o Fortuna[2] preso sou […]

Um dos intelectuais mais atuantes no período da ditadura militar no Brasil, o bravo editor Ênio Silveira lançou, em 1965, a Revista Civilização Brasileira, periódico que levava o nome da editora sob seu comando. Não seria a sua detenção quatro vezes seguidas, entre 1964 e 1969, a impedi-lo de fazer da revista um instrumento de combate à censura, sobretudo no campo das artes. Sob a forma de editorial, aí publicou duas “Epístolas ao marechal”, dirigidas ao então presidente, marechal Castello Branco. Reproduz-se a seguir a primeira delas, documento de extraordinária lucidez, vigor intelectual e elegância estilística.

Senhor marechal,

Acredito que seus muitos afazeres, antes e depois do movimento insurrecional que o conduziu à chefia da nação brasileira, não lhe tenham permitido tomar conhecimento de um livro curioso, cuja leitura me parece recomendável a todo chefe de governo e que nos Estados Unidos da América do Norte, onde foi originalmente publicado, já […]

Publicada originalmente no Jornal do Brasil de 13 de junho de 1979, com esta carta Nelson Rodrigues reivindicava ao general Figueiredo, presidente do Brasil de 1979 a 1985, a libertação de Nelson Rodrigues Filho, preso desde março de 1972, sob acusação de pertencer ao movimento de guerrilha urbana MR-8.

Nem eu nem você fomos jamais presidentes da República. É pena, porque seria uma experiência tremenda. Às vezes o presidente é apenas uma pose. Isso e nada mais. Entretanto Bismarck, primeiríssimo-ministro, estadista de gênio, solene como se fosse estátua de si mesmo, parecia abaixo do bem e do mal. O estadista não apertava a mão […]

As dores do exílio são comentadas nesta carta de Augusto Boal ao também ator e diretor de teatro Gianfrancesco Guarnieri, que ficara no Brasil enfrentando, do lado de dentro, a ditadura militar que se instalou no país de 1964 a 1985.

Paris, 14 [de] fevereiro [de] 1979

Foi no meio da noite um telefonema que devia ter sido ao meio-dia, com o sol a pino; foi no meio do sono um telefonema, que devia ter sido em horas de lucidez; foi com os olhos meio fechados, quando deviam estar arregalados; foi com os ouvidos meio surdos do barulho dos loubards em motocicletas no Boulevard Beaumarchais, aqui perto, lá embaixo, que eu ouvi a tua voz lá de longe, inesperada, bem-vinda.