O lançamento do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, deu à estreante a convicção de seu futuro de escritora: sobre o livro, e em curto espaço de tempo, escreveriam os nomes mais importantes da crítica literária brasileira, entre os quais Antonio Candido, que viu na obra “performance da melhor qualidade”. Mas faltou um: Mário de Andrade, cujo silêncio até a data desta carta inquietou a romancista a tal ponto que ela, com graça intrigante, reivindica opinião. Lendo-a agora, tem-se a impressão de que Clarice quase desafia o papa do modernismo, tão segura parece se sentir como escritora.  

Belém, 27 de junho de 1944

Mário de Andrade

Acostumei-me de tal forma a contar com o senhor que, embora temendo perturbá-lo e não lhe despertar o menor interesse, escrevo-lhe esta carta.

O fato do senhor não ter criticado meu livro serve evidentemente de resposta e eu a compreendo. No entanto, gostaria de bem mais do que o silêncio, mesmo que […]

Vinte dias depois de Mario Quintana ter completado sessenta anos, Paulo Mendes Campos o homenageou com esta carta, publicada na revista Manchete de 20 de agosto de 1966.

Meu caro poeta: no dia 30 de julho passado fizeste sessenta anos. Não dou os parabéns a ti, mas a mim e a todos os convivas de tua poesia. Imagina que em uma galáxia remota estejam reproduzidas todas as formas terrestres – a antimaté­ria de que falam esses descabelados ro­mânticos da realidade, os físicos moder­nos. […]

Contemporâneo de Lygia Fagundes Telles e 21 anos mais velho que ela, Drummond pôde acompanhar a trajetória de uma das maiores contistas da literatura brasileira e tecer considerações sobre a obra da amiga. É o que faz nesta carta em que comenta os contos de O jardim selvagem, publicado no ano anterior.

Rio de Janeiro, 28 [de] janeiro [de] 1966

Lygia querida,

Sabe que ganhei de Natal uma gravata bacaníssima, cuja está no armário esperando para ser usada numa reunião à altura? E que me de­ram também um pratinho conimbrense muito do gracioso, para guardar pe­quenas coisas importantes do equipamento de um senhor supostamente ele­gante? E que além desses dois mimos me regalaram com um […]

Em um encontro de Vinicius de Moraes, Otto Lara Resende e Fernando Sabino na casa do último, em outubro de 1944, o poeta carioca leu e criticou alguns textos de Otto, tomados como exemplo da alma contida, sufocada e bem-comportada dos mineiros. A análise de Vinicius convenceu os amigos da necessidade de mudança nesse panorama literário, o que o levou a escrever esta carta polêmica publicada em O Jornal, do Rio de Janeiro, no dia 5 de novembro de 1944.

Há uns dez pares de dias, ó escritores de Minas Gerais, uma conversa noturna que se iniciou num bar em Copacabana levou-me à casa de um jovem conterrâneo vosso, um prosador novo dessas terras altas, e, apraz-me dizer, um dos melhores e mais bem aquinhoados pela humanidade e pelo espírito. Com ele se achava outro […]

Em 18 de janeiro de 1921, Austregésilo de Athayde publicara no jornal carioca A Tribuna uma carta aberta a Lima Barreto, na qual, entre elogios, procurava estabelecer diferenças entre a obra dele e a de Machado de Assis. Esta é a resposta de Lima Barreto, escrita no dia seguinte e publicada vinte anos depois na Revista do Brasil.

Todos os Santos [Rio de Janeiro], 19 de janeiro de 1921

Meu caro senhor Austregésilo de Athayde,

Saudações.

Agradeço-lhe muito a bondade que teve, dirigindo-me a carta aberta que a Tribuna publicou, em 18 último.

Quisera, por miúdo, saber dos termos da excomunhão que mereci do padre-mestre Tadeu.

Não tenho nenhuma malquerença com os padres e mesmo com os frades de certas ordens. Se há algum […]