O poeta Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda, uma das principais críticas da cultura brasileira em ação, são amigos de longa data. Ele, que completa 80 anos neste 18 de fevereiro de 2020, doou recentemente seu arquivo ao Instituto Moreira Salles. Entre os documentos, fotografias e originais de poemas que, em breve estarão disponíveis para consulta, encontra-se esta carta em que “Helô” revela as saudades do amigo poeta e as novidades dos Estados Unidos, quando ministrava aulas de Literatura Brasileira na Columbia University como professora visitante.

Nova Iorque, 28 de junho de 1984

Armando querido:

Não foi uma carta que recebi. Foi você inteirinho dentro do envelope. Papel de serviço público, caligrafia psicoirrepreensível, mergulhando vestido. Quase morro de saudades. Saudades de implicar com você. Aqui tem tudo que a gente possa pensar self-made men, freaks, junkies, scholars, artists, qualquer coisa, mas […]

Neste 2019, a coletânea Cartas a um jovem poeta completa 90 anos de publicação. O conjunto de 10 missivas escritas entre 1903 e 1908 ao jovem Franz Xaver Kappus é um dos mais altos momentos da sensibilidade e do pensamento de Rainer Maria Rilke. Para comemorar a data, o Correio IMS convidou Armando Freitas Filho para escrever uma carta a um jovem poeta de nosso tempo.

Rio de Janeiro, 3 de abril de 2019

Meu caro poeta:

Bem sei, não consigo escrever, nem de longe, como Rilke fez com Franz Kappus. Por isso mesmo recomendo a leitura das cartas escritas por ele para quem o procurou faz tanto tempo.

Mas falo da minha experiência, que pode servir a todos que queiram se impregnar de poesia e apreender o poético […]

O lançamento do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, deu à estreante a convicção de seu futuro de escritora: sobre o livro, e em curto espaço de tempo, escreveriam os nomes mais importantes da crítica literária brasileira, entre os quais Antonio Candido, que viu na obra “performance da melhor qualidade”. Mas faltou um: Mário de Andrade, cujo silêncio até a data desta carta inquietou a romancista a tal ponto que ela, com graça intrigante, reivindica opinião. Lendo-a agora, tem-se a impressão de que Clarice quase desafia o papa do modernismo, tão segura parece se sentir como escritora.  

Belém, 27 de junho de 1944

Mário de Andrade

Acostumei-me de tal forma a contar com o senhor que, embora temendo perturbá-lo e não lhe despertar o menor interesse, escrevo-lhe esta carta.

O fato do senhor não ter criticado meu livro serve evidentemente de resposta e eu a compreendo. No entanto, gostaria de bem mais do que o silêncio, mesmo que […]

Vinte dias depois de Mario Quintana ter completado sessenta anos, Paulo Mendes Campos o homenageou com esta carta, publicada na revista Manchete de 20 de agosto de 1966.

Meu caro poeta: no dia 30 de julho passado fizeste sessenta anos. Não dou os parabéns a ti, mas a mim e a todos os convivas de tua poesia. Imagina que em uma galáxia remota estejam reproduzidas todas as formas terrestres – a antimaté­ria de que falam esses descabelados ro­mânticos da realidade, os físicos moder­nos. […]

Contemporâneo de Lygia Fagundes Telles e 21 anos mais velho que ela, Drummond pôde acompanhar a trajetória de uma das maiores contistas da literatura brasileira e tecer considerações sobre a obra da amiga. É o que faz nesta carta em que comenta os contos de O jardim selvagem, publicado no ano anterior.

Rio de Janeiro, 28 [de] janeiro [de] 1966

Lygia querida,

Sabe que ganhei de Natal uma gravata bacaníssima, cuja está no armário esperando para ser usada numa reunião à altura? E que me de­ram também um pratinho conimbrense muito do gracioso, para guardar pe­quenas coisas importantes do equipamento de um senhor supostamente ele­gante? E que além desses dois mimos me regalaram com um […]