Quando foi instaurado o golpe de 1964, Glauber Rocha viajava com Deus e o Diabo na Terra do Sol para o Festival de Cannes. Nas cartas que então recebeu do Brasil, evidencia-se o contraste entre o luto político e o deslumbramento de toda uma geração com o filme, cujo impacto causado em seu lançamento no Rio de Janeiro é descrito nesta carta de Gustavo Dahl.

Rio de Janeiro, 6 de abril de 1964

Glaubiru, Glaubiru,

Barbarizou, barbarizou. Que agitação, que confusão. Teu rosto me apa­rece tão nítido, mas tão rápido, entre tantas outras coisas, depois de tanto tempo. O essencial foi dito e sentido. E espero que os dólares já estejam em tuas mãos. Depois foi aquela coisa terrível, todo mundo falando do teu fil­me, de ti, quase […]

Dois anos depois do golpe militar que instaurou o regime de ditadura no Brasil entre 1964 e 1985, Glauber Rocha, nesta carta, reflete sobre o desencanto de que era tomado naquele momento em que vivia a “mais brutal crise” de toda a sua vida.

Rio de Janeiro, 1966

Querido Jomard,

Estive aqui folheando lentamente o teu livro[1] e lhe asseguro que vou ler com o maior interesse, porque já vi que você fez um estudo inteli­gentíssimo sobre nossa Cultura! e sobretudo porque descobri, num relance, que os autores citados por você, revistos e essencializados! dão mesmo uma Visão brasileira, complexa, contraditoriamente […]