Esta carta do autor de Capitães da areia foi escrita especialmente para o Calendário Pirelli de 1971, cujo tema era “a Bahia de Jorge Amado”. Nela, o escritor fala de seu estado natal e também de seus livros e personagens famosos, como Dona Flor e Gabriela. Reproduz-se aqui uma pequena parte da edição em livro que pertence ao arquivo de Otto Lara Resende, sob a guarda do Instituto Moreira Salles.

Salvador, junho de 1970

A admiradora perguntou ao pintor Carybé, o mais baiano dos baianos:

— O senhor nasceu na Bahia?

O pintor das mulatas, dos orixás, da puxada de xaréu,[1] da capoeira, respondeu com seu sorriso breve:

— Não mereci, minha senhora.

Bem que merecia e ninguém mais do que ele pois de suas mãos mágicas […]

O encontro de Goeldi com o tcheco Alfred Kubin na Galeria Wyss, em Berna, 1917, foi decisivo na formação do artista brasileiro que fazia ali sua primeira exposição individual. Iniciada em 1926, a correspondência entre os dois inclui cartas como esta, na qual o gravador carioca descreve a paisagem do Rio de Janeiro, cidade que Kubin não conhecia.

Rio [de Janeiro], 16 de dezembro de 1930

Caro e venerado mestre,

Caro senhor Kubin,

O lindo livro com as suas maravilhosas ilustrações está bem guardado e me dá muita alegria. Eu moro aqui, ao lado do mar, na baía mais afastada do Rio “Praia-Ipanema-Leblon”. Das poucas casas que de vez em quando aparecem neste deserto de areia pode-se ver quase que só […]

De seu primeiro posto diplomático, em Vigo, na Espanha, o escritor Aluísio Azevedo escreve esta carta fervorosa ao amigo Pedro Freire, dando provas de arrebatamento fraterno, além de impressões sobre o povo e a cidade. Com relação ao primeiro, compara-o ao do Maranhão, seu Estado natal, sem que tenha Vigo “a índole hospitaleira de nossa terra”.

Vigo, 24 de junho de 1896

Meu bom e querido Pedro Freire,

Ora, venha de lá esse abraço! Ainda há pouco, às 8h00 da manhã, quando o correio me entregou a tua carta de 1º do corrente e no sobrescrito dela reconheci tua letra, confirmada pelo dístico da tua secretaria, tive tão vivo prazer, que este dia, dia de São João, […]

A ardente experiência amorosa vivida pelo romancista Aluísio Azevedo em Lisboa contribuiu para que ele considerasse a capital portuguesa melhor que Vigo, cidade espanhola onde, em 1895, ele dava início à sua carreira diplomática – é o que revela esta carta plena de entusiasmo e erotismo, escrita ao amigo Florindo de Andrade.

Vigo, 2 de setembro de 1896

Florindo,

Tua carta foi a minha alegria. Dei graças aos céus em a recebendo, porque supunha já que não existias, dúvida que me trazia o espírito atribulado, porque tu não és simplesmente um homem, tu és uma geração, és um símbolo.

Ouve lá, oh tu! — se te agrada saber que é grata a minha […]

Em 1972, quando o país comemorou os 70 anos de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, não faltou edição especial do Suplemento Literário do Minas Gerais, jornal belo-horizontino. Na edição do dia 28 de outubro, Francisco Iglésias publicou o substancioso artigo “Depoimento e homenagem”, não só com o objetivo de registrar a data redonda, mas também para proclamar sua devoção pessoal, irrestrita, ao poeta de “Sentimento do mundo” que, nesta carta, agradece a homenagem.

Rio [de Janeiro], 4 de dezembro de 1972

Meu caro Francisco Iglésias,

Nada poderia ser mais agradável para mim do que ler, sob a sua assinatura, que meus escritos são “a tradução do ser mineiro”. Senti-me retratado em absoluta fidelidade nesta palavra. Quando moço, o condicionamento a Minas incomodava-me um pouco, e eu aspirava nebulosamente a libertar-me das raízes, mas o tempo se […]