Com a proximidade do primeiro de maio, dia do aniversário de 37 anos de Otto Lara Resende, que, na ocasião, era adido cultural na Embaixada do Brasil, em Bruxelas, Hélio Pellegrino, então com 35 anos, escreve esta carta comovente e afetuosa em que reflete sobre a passagem do tempo e a maturidade.

Rio de Janeiro, 18 de abril de 1959

Meu excelente Otto,

Escrevo-lhe, depois do almoço, em plena tarde de verão, já que esse dadivoso calor carioca não mais se desprega da pele da cidade. Grudou-se a ela, a nós todos, e nos suga pachorrentamente, gruda e gordíssima sanguessuga que nos espreme os poros, os ossos, os poços.

Acabo de passar os olhos no […]

Colega de curso na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde  Lygia Fagundes Telles era a única mulher, Antonio Candido, nesta carta, relembra o período em que conheceu a escritora em um concurso de contos. Desta vez, o crítico literário a felicita pelo recebimento do Prêmio Camões – o mais importante da literatura de língua portuguesa –, e reivindica o lugar de ter sido dos primeiros a reconhecer-lhe o talento.

São Paulo, 15 de maio de 2005

Querida Lygia:

Parabéns pelo Prêmio Camões, com muito orgulho para mim por tê-la como colega de galardão. Ninguém o merece mais do que você, não apenas pela alta qualidade da obra, mas pela dignidade da carreira, construída com persistência equivalente à força do talento, num exemplo de vocação servida desde a adolescência pelo trabalho consciente.

[…]

Lygia Fagundes Telles cursava ainda a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco quando começou a trabalhar como assistente do Departamento Agrícola do Estado de São Paulo. Embora estudasse para ser advogada, como o pai, aos 20 anos estava certa de que sua vocação era a literatura. Esta carta, escrita para Erico Verissimo, de quem era amiga, testemunha a insatisfação com o cargo público e a criação improvisada de um pequeno e delicioso conto.

São Paulo, 3 de julho de 1943

Erico Verissimo, estou numa sala onde trabalho, isto é, onde devo deixar todos os dias num livro, fincado como um marco, o vestígio da minha passagem. Em outros termos, funcionária pública, a pior funcionária pública que existe no mundo. Leio romances enfurnados na gaveta, tenho o ar dolorido para que não me deem serviço e, […]

Colaborador dinâmico em periódicos na América do Sul, junto com sua mulher, a intelectual Lidia Besouchet, Newton Freitas divulgou a literatura brasileira durante seu exílio, sobretudo em Buenos Aires, no período da ditadura militar. Iniciada em 1940, a amizade entre Mário de Andrade e Newton, apesar de curta, foi intensa. Mário via em Newton “o sul-americano sem sumário, que vive necessariamente em sul-americanismo”. Para este, o autor de Macunaíma foio mais belo episódio” de sua vida, porque reunia e resumia as figuras de mestre, herói e irmão mais velho.

São Paulo, 16 de abril de 1944

Meu caro Newton,

Esta carta vai lhe causar algum desgosto, se prepare. Estou respondendo à última sua, que tem tanto assunto que vou responder rápido um por um […].[1] Eu estava no hospital, e aliás mesmo que estivesse presente nada poderia fazer, está claro. Por coincidência, no dia em que o Petit chegou, […]

Em 1956 é publicado o romance Grande sertão: veredas, considerado uma das três epopeias em língua portuguesa, depois de Os lusíadas e Os sertões. Atualizada com os lançamentos recentes no Brasil, Clarice Lispector, na época vivendo nos Estados Unidos com a família, expressa seu encantamento com a leitura do livro recém-publicado de Guimarães Rosa ao amigo mineiro Fernando Sabino.

Fernando,

Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida […]