I.

Conta-se a seguinte história: Mário de Andrade, valendo-se do pseudônimo Mário Sobral, do alto dos seus 24 anos e de namoro com o parnasianismo, manda uns quinze sonetos junto com uma “carta assombrada de idolatria e servidão” para Vicente de Carvalho, seu “ídolo parnasiano”.

O então jovem autor de Há uma gota de sangue em cada poema (1917) vai buscar aprovação, parecer, “qualquer coisa para esclarecer as dúvidas” sobre sua própria produção literária tão recente e já volumosa.

Mário tem quase certeza que entregou a carta em mãos. Ainda assim, não há resposta alguma: nem sim, nem não. Nada. O episódio dói no Mário moço a tal ponto que começa a “cultivar um complexo de inferioridade prodigiosamente feliz”, que o “deixava solto, livre, irresponsável […] curioso de todas as inovações, sequaz incondicional de todas as revoltas”.[1] Em certa medida, o silêncio de Vicente de Carvalho funcionou como combustão para o Modernismo.

Lembrando da angústia de que o “ídolo parnasiano” o fez padecer, Mário de Andrade, no futuro, atenderia a todos os que lhe solicitassem opinião sobre suas experiências literárias.

II.

Em algum ponto da Polônia dos anos 1960, uma dinâmica similar se organizava em torno da revista Vida Literária (aos fluentes em polonês: Zycie Literackie). Cabia à poeta Wislawa Szymborska, tendo ao lado o crítico e editor Wlodzimierz Maciag, responder dúvidas de jovens aspirantes a autores, cujas cartas enviadas à redação pediam parecer, conselho, socorro. Cartas que beiravam desespero e, às vezes, inocência pueril.

Se nos acostumamos a topar com Wislawa Szymborska apenas na seção de poesia das livrarias, agora se pode conhecer sua inteligente e divertida faceta como crítica em Correo Literario – cómo llegar a ser (o no llegar a ser) escritor, compilação das cartas que enviava aos leitores lançada pela editora espanhola Nordica Libros em 2018.

capa do livro como llegar a ser un escritor - wislawa - elizama

“Não inventamos nada. É uma velha tradição de revistas literárias. Sempre foi necessário responder a alguns autores, sobretudo, iniciantes” – avalia ela sobre o funcionamento do “Correio” na entrevista que abre a edição recém-publicada.

Com a típica tranquilidade que paira nas fotos de uma das mais aclamadas poetas contemporâneas, Szymborska responderia todas as cartas enviadas ao “Correio Literário”, uma das seções da revista Vida Literária, destinada ao diálogo epistolar com o público. Foram quase 20 anos de “Correio” e mais de 230 respostas.

De parca aparição pública, é por meio dessas cartas ao leitor que acessamos as ideias sobre literatura da autora polaca. Nessa época, ela já havia publicado Chamando por Yeti (1957), livro de poemas que lhe deu projeção nacional.

Sua missão no “Correio Literário” se desdobrava em duas outras missões elementares: levar o jovem autor a refletir sobre o texto escrito “e o mais importante: animava-os a ler livros”. Dica infalível da própria poeta à qual devemos nos agarrar, escritores pretensos ou não. Rotulada de impiedosa por alguns remetentes, a verdade é que ela acreditava mesmo que “um balde de água fria tem efeitos terapêuticos”.

Os casos que chegavam ao “Correio Literário” eram diversos. Havia jovens que tinham a ousadia de submeter à redação trechos de romances já publicados como se fossem seus (um dos mais descarados plagiou A montanha mágica, de Thomas Mann!). Irônica, Wislawa ainda barrou duas ou três vezes poemas “enfeitados” que pareciam saídos da “cômoda da bisavó”. Também não eram poucos os manuscritos ilegíveis anexados às cartas, sem quaisquer cuidados, o que inviabilizava a leitura logo de cara: “Te pedimos… Não, não, não te pedimos, te rogamos… Não, não, tampouco, imploramos que nos envie textos de maneira legível […]. Quando isso acontecer, aí sim poderemos avaliar” – apelava aos seus leitores.

Vê-se bem que Wislawa não respondia às cartas laconicamente como costumavam fazer as demais editoras, com secos “não se contempla” ou, no máximo, “recomendamos trabalhar um pouco mais o texto”, sem dizer como, onde, o quê.

III.

No fundo, todas essas pequenas cartas com tentativas, dúvidas e aflições estão ligadas a uma questão maior: afinal, Wislawa, como se tornar um escritor? Ela, que receberia o prêmio Nobel de literatura em 1996, responde ao leitor: “A pergunta que você faz é muito delicada. É como um filho que quer saber como as crianças são feitas e a mãe diz que explicará mais tarde, que está muito ocupada, mas o filho insiste: ‘então me explica pelo menos como as cabeças são feitas…’. A meu ver, podemos tentar também explicar, pelo menos, a cabeça: para ser escritor, tem que ter algum talento”.

Talento: alguns têm, outros jamais terão. E “isso não significa que esses outros não tenham nada mais para fazer. Podem ser excelentes bioquímicos ou descobrir, por exemplo, o Polo Norte” – ensina Wislawa Szymbrorska, e não discordamos.

[1] Carta de Mário de Andrade a Rosário Fusco de 21 de março de 1935 publicada em Mário de Andrade: entrevistas e depoimentos (1985), edição organizada por Telê Ancona Lopez lançada pela T. A. Queiroz.


*Elizama Almeida é assistente cultural no Instituto Moreira Salles e mestranda no programa de Literatura, Cultura e Contemporaneidade da Puc-Rio.