Após ter o mandato de deputado federal cassado pelo AI-5, em 1968, o jornalista e político carioca Márcio Moreira Alves exilou-se no Chile, onde viveu durante dois anos. A saudade do Brasil e, principalmente, dos amigos está refletida nesta carta, enviada a Rubem Braga. Além de lembrar a amizade com o cronista Paulo Mendes Campos, Moreira Alves documenta as paisagens chilenas, com descrições típicas do realismo mágico latino-americano.

Rubem velho,

Achei que a única lembrança digna de quem já esvaziou oceanos de garrafas era um navio aprisionado. O Neruda tenta convencer-nos que esses navios são feitos à noite, por pequenos duendes carpinteiros. A verdade é menos mágica. Abre-se a garrafa com uma faca de diamante, coloca-se dentro o navio e fecha-se tudo com […]

Na década de 1960, a dupla Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade se articulava para organizar e publicar uma “certa antologia” que incluiria um texto de Antônio Maria. Apesar de o projeto não ter avançado, o cronista pernambucano, emocionado, se dirige ao poeta itabirano nesta carta-crônica.

Embora não seja de me alegrar à toa, eis-me contentíssimo, com o telefonema recebido esta manhã. Do outro lado da linha, Carlos Drummond de Andrade a me pedir uma crônica sobre o Rio, para certa Antologia, que ele e Manuel Bandeira estão preparando. Claro, meu exultamento não tinha nada a ver com a […]

Na década de 1970, o bibliófilo e advogado Plínio Doyle, com apoio de vários autores de literatura brasileira, fundou o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. No mesmo período, a escritora Lygia Fagundes Telles também projetava um museu literário, com sede em São Paulo, com o apoio do Centro Federal de Cultura, cujo projeto foi abandonado em 1977. Uma notícia publicada na mídia confundiu as instituições de guarda e ativou em Doyle sentimentos controversos, entre irônicos e solidários.

Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1975

Lygia Fagundes Telles, mui querida amiga,

Os prelos gemeram anteontem com o seu nome, e as notícias da fundação do museu de literatura brasileira, sob a sua direção, aí em São Paulo; boa notícia, ótima notícia, parabéns, parabéns, parabéns; arquivos assim precisavam ser organizados em todas as grandes cidades, para preservar da destruição e da perda, […]

A vida é um bocejar infinito

De: Álvares de Azevedo Para: Maria Luísa Silveira da Mota

Em 1848, o poeta paulistano Álvares de Azevedo deixa o Rio de Janeiro, onde morava sua família, e retorna à cidade de nascimento para concluir os estudos na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Aos 17 anos, o jovem não demonstra entusiasmo ao chegar à capital, que, naqueles tempos, era habitada por pouco menos de 15 mil pessoas. Em carta à sua mãe, Maria Luísa Silveira da Mota Azevedo, o autor de Lira dos vinte anos (1853) traça um perfil diferente da metrópole que conhecemos hoje.

São Paulo, 12 junho de 1849

Tenho a vista a sua de 3 de corrente que com muito prazer recebi.

Enquanto no Rio reluzem esses bailes a mil e uma noites, com toda a sua mania de fulgências e luzes, por aqui arrasta-se o narcótico e cínico baile da concórdia Paulistana.

Nunca vi lugar tão insípido, como hoje está São Paulo […]

Em 1969, o ex-jogador, cronista esportivo e militante político João Saldanha foi convidado para ser treinador da Seleção Brasileira. A campanha nas eliminatórias para a Copa não poderia ter sido melhor: seis jogos e seis vitórias. Entretanto, a presença de João Sem Medo, como ficou conhecido, em cargo tão importante não interessava ao general Emílio Garrastazu Médici, terceiro comandante da ditadura militar. Saldanha relatou episódios que o levariam a deixar a função em uma carta aberta publicada na revista Placar, da qual reproduzimos alguns trechos.

[Rio de Janeiro], 27 de março de 1970

Um dia o dr. Antônio do Passo[1] apareceu na minha casa e me convidou para ser treinador da Seleção Brasileira. Não me falou em contrato, em dinheiro, em nada. Só perguntou se eu queria ser o treinador da Seleção. Eu disse a ele:

– Isso […]