Durante os anos 1930, os principais artistas brasileiros voltaram seus olhos para as injustiças sociais do país. A amizade entre Graciliano Ramos e Candido Portinari, por exemplo, foi marcada pelo tema, numa parceria intelectual refletida em robusta correspondência epistolar. Na carta a seguir, o autor de “Vidas secas” (1938) propõe uma reflexão sobre o papel da dor no fazer artístico. A obra de Graciliano Ramos estará presente na próxima edição do Clube de Leitura do Instituto Moreira Salles, que começa no mês de julho próximo.

Rio, 18 de Fevereiro de 1946

Do site graciliano.com.br[1]

Caríssimo Portinari:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da […]

Sua mãe, Clarice

De: Clarice Lispector Para: Pedro Gurgel Valente

Dois anos antes de morrer, Clarice Lispector escreve uma carta afetuosa ao filho mais velho, Pedro Gurgel Valente, sobre o bem-estar que sentia ao pintar. Aqui, reúnem-se duas facetas de Clarice: a maternidade e o fascínio pelas artes plásticas. Dentre os vinte quadros pintados pela escritora, dois fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles e estarão, em breve, na exposição dedicada a Clarice no ano de seu centenário.

Rio, 25 de julho de 1975

Pedro, meu querido filho, como vai?

Lembre-se ainda que eu às vezes pintava quadros, e você também? Pois agora comprei tintas de acrílico, pincéis e telas – é uma libertação pintar. Liberta mais do que escrever.

 

            Sua mãe


 

Neste vídeo de 2014, Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, […]

A primeira viagem de Mário de Andrade ao Rio de Janeiro foi no Carnaval de 1923. Na cidade, ele aproveitaria apenas dois dias, se recolhendo, depois, na tranquila Petrópolis, onde combinara de encontrar Manuel Bandeira. Se, nos primeiros dez minutos, a festa de Momo causaria um “choque terrível” ao poeta paulista, logo esqueceria todos os compromissos firmados tanto com parentes quanto com o próprio Bandeira, e Mário se refestelaria na folia durante todos os dias. A “aventura curiosíssima” na cidade foi registrada em verso no poema “Carnaval carioca”, publicado em 1927.

[São Paulo, fevereiro de 1923]

Querido Manuel,

Não me condenes antes que me explique.

Depois perdoarás.

Foi assim. Desde que cheguei ao Rio disse aos amigos: dois dias de carnaval serão meus. Quero estar livre e só. Para gozar e observar. Na segunda-feira, passarei o dia com Manuel, em Petrópolis.  Voltarei à noite para ver […]

Aos 62 anos, o já consagrado Drummond relembra episódios da infância vividos com o pai Carlos de Paula Andrade, presente em alguns de seus poemas e crônicas drummondianas. Nesta carta/crônica, publicada no jornal carioca Correio da Manhã, onde o poeta e cronista colaborou três vezes por semana durante 15 anos, ele recorda afetuosamente uma preciosa lição do pai que não pôde ser cumprida: “o essencial em duas palavras”.

 [Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 1964]

Às vezes o senhor me chamava para seu secretário, e isso me enchia de orgulho. Eu pequeno, o senhor tão grande — maior que um homem comum aos olhos de qualquer menino. Tudo no lugar era pequeno e doméstico, e o senhor, sim, era grande — começa […]

Com a proximidade do primeiro de maio, dia do aniversário de 37 anos de Otto Lara Resende, que, na ocasião, era adido cultural na Embaixada do Brasil, em Bruxelas, Hélio Pellegrino, então com 35 anos, escreve esta carta comovente e afetuosa em que reflete sobre a passagem do tempo e a maturidade.

Rio de Janeiro, 18 de abril de 1959

Meu excelente Otto,

Escrevo-lhe, depois do almoço, em plena tarde de verão, já que esse dadivoso calor carioca não mais se desprega da pele da cidade. Grudou-se a ela, a nós todos, e nos suga pachorrentamente, gruda e gordíssima sanguessuga que nos espreme os poros, os ossos, os poços.

Acabo de passar os olhos no […]