As dores do exílio são comentadas nesta carta de Augusto Boal ao também ator e diretor de teatro Gianfrancesco Guarnieri, que ficara no Brasil enfrentando, do lado de dentro, a ditadura militar que se instalou no país de 1964 a 1985.

Paris, 14 [de] fevereiro [de] 1979

Foi no meio da noite um telefonema que devia ter sido ao meio-dia, com o sol a pino; foi no meio do sono um telefonema, que devia ter sido em horas de lucidez; foi com os olhos meio fechados, quando deviam estar arregalados; foi com os ouvidos meio surdos do barulho dos loubards em motocicletas no Boulevard Beaumarchais, aqui perto, lá embaixo, que eu ouvi a tua voz lá de longe, inesperada, bem-vinda.

Do Grand Hotel Saint-Michel, em Paris, Jorge Amado escreve à mulher, Zélia, cartas reveladoras da atividade política que desenvolvia na insegura Europa do pós-guerra, onde se exilara após a cassação do mandato de deputado pelo Partido Comunista Brasileiro, declarado ilegal em 1947. A correspondência mostra ainda o esforço de um homem apaixonado para superar a ausência da companheira de toda a vida.

Paris, 23 de março de 1948

Paris, 23 de março de 1948
Querida minha, minha negra saudosa, meu amor mais lindo do mundo, novamente estou há uma semana sem cartas tuas, sem saber se estás no Rio ou em São Paulo, o correio de ontem trouxe carta da Argentina (de Rodolfo Ghioldi)[1] mas nada do Brasil. Não sei nem de ti, nem de João, nem […]

Figura trágica da monarquia brasileira, Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança foi preparado para suceder ao avô, dom Pedro II. Bonito e culto, mas frágil emocionalmente, esse filho da princesa Leopoldina, que deveria tornar-se dom Pedro III, acompanhou de perto a morte do imperador do Brasil no exílio, em Paris. Seu testemunho pode ser lido nesta carta à tia, a duquesa Alexandrina de Saxe-Coburgo e Gotha. 

Paris, 29 de dezembro de 1891

Minha querida tia,

Devo pedir-lhe mil desculpas por meu atraso. Acredite, foi devido ao estado de tristeza e ao repouso no qual me encontro desde a catástrofe do dia 5 deste mês.

Faço questão também de agradecer-lhe de todo o coração essas novas demonstrações de afeto quase maternais.

Minha carta parecerá talvez insuficiente para exprimir […]

No dia 5 de março de 1936, no Rio de Janeiro, Luiz Carlos Prestes, líder do movimento antifascista de 1935, e sua mulher, Olga Benário Prestes, foram encarcerados. De Paris, a mãe do revolucionário encabeçou um movimento de libertação dos presos políticos no Brasil. A iniciativa, bem-sucedida, possibilitou sua comunicação com o filho, por correspondência, e, dois anos depois, a libertação da neta, Anita Leocádia, nascida numa prisão da Alemanha para onde Olga fora deportada.  

Paris, 31 de julho de 1937

Meu querido filho,

O meu mais ardente desejo é que estas linhas te encontrem com saúde. Tenho presente tua boa carta datada de 16 do corrente e que aqui chegou com dez dias de viagem, o que não sei como explicar, porque veio pelo avião. Recebi também a que escreveste à nossa querida Olga.

Lamento […]

Em missão oficial de estudos e pesquisa para a qual foi comissionado pela Secretaria do Império, Gonçalves Dias permaneceu na Europa de julho de 1854 a 1858. Sua única filha, Joanna, nasceu em Paris, em 20 de novembro de 1854, e morreu, de pneumonia, em 24 de agosto de 1856, no Rio, para onde voltara com a mãe em busca de melhor clima para sua saúde. Da Europa, quando soube da morte da filha, o poeta escreve à mulher.

Paris, 15 de outubro de 1856

Olímpia,

Muito tenho para lhe escrever, minha Olímpia, e mais depois da perda que ambos acabamos de sofrer; nisso acharia eu uma triste consolação, que debalde se procura entre pessoas indiferentes.

Depois de tantos cuidados, quando tinha todas as esperanças de que a nossa pobre filha vingaria, quando todas as cartas que recebia mais me […]