Até onde pode ir o processo de criação de uma obra? Com Murilo Rubião, a gestação de um conto pode durar pelo menos 15 anos – é o que mostra esta carta a Otto Lara Resende, com quem comenta “Teleco, o coelhinho”, incluído no livro Os dragões e outros contos, de 1965. 

Belo Horizonte, 30 de março de 1950

Velho Otto,

Não pense em possíveis ingratidões, que elas não existem. Toda mudança envolve ambientação nova, novos compromissos. E sendo retorno, temos que reatar velhos amores, reajustar nossa máquina bélica para outros empreendi­mentos sentimentais.

Não foi o que fiz. Deixei-me embalar por essa inefável monotonia belorizontina, que pode irritar os menos avisados, mas que tanto […]

Ainda sob efeito da emoção causada pela morte de um grande amigo, o contista Murilo Rubião, sob o impacto da perda, faz reflexões importantes nesta carta a Otto Lara Resende, retomando a contato epistolar após o período de luto.

Belo Horizonte, 25 de outubro de 1948

Querido Otto,

Nem sei mais o que escrevi na outra carta (a que segue com esta). Ficou em cima da mesa, enquanto acontecimentos per­turbadores me deslocavam da minha habitual solidão. Não foi o amor. Uma tristeza maior, causada pela morte de um grande amigo, momentaneamente, me fez esquecer os amigos vivos. Volto agora, com retemperada […]

Em 2013, a exposição “Amilcar de Castro: repetição e síntese”, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte, apresentou um panorama da produção do artista mineiro, reunindo obras de várias áreas em que ele atuou. Na ocasião, Rodrigo Moura, então um dos curadores do Instituto Inhotim e ex-aluno de Amilcar na Escola Guignard, também em Belo Horizonte, escreveu esta carta ao escultor, que morreu em 2002.

Belo Horizonte, 14 de dezembro de 2013

Amilcar,

Finalmente fui ver tua exposição na Praça da Liberdade. Como deve ter lhe contado o Affonso Ávila, aquilo virou uma procissão de centros culturais, um corredor ou algo assim. Naquele de um banco, fizeram agora uma mostra com as tuas coisas. Eu confesso que custei para encontrar as salas todas, mas quando […]

Amigo de Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, com os quais, dentre outros, fundou a revista literária Edifício, o historiador mineiro Francisco Iglésias, chocado com a morte súbita de Hélio em 23 de março, escreve, no mesmo dia, a Otto Lara Resende, solidarizando-se com sua dor. A resposta viria dois dias depois, em bela carta do autor de O braço direito.

Belo Horizonte, 23 de março de [19]88

Caro Otto,

Recebi esta manhã – 7h30 horas – a notícia da morte de Hélio Pellegrino. Fiquei chocado, como não podia deixar de ser. Acho uma injustiça que uma pessoa de tanta vitalidade, de tanto amor a tudo – à comida, às paisagens, às mulheres, ao homem em geral, a Deus, às ideias políticas pelas […]

Nesta carta, Noel se dirige ao seu médico, Edgar Graça Mello, que em 1934 lhe diagnosticou uma lesão no pulmão direito e “qualquer coisa” querendo começar no esquerdo. Em janeiro de 1935, o paciente viajou para a casa de uma tia, Carmem, irmã de sua mãe, em Belo Horizonte, onde, em lugar de sossego, caiu na boemia com os artistas da Rádio Mineira. Décadas depois, o compositor João Nogueira musicou a carta, gravando-a em seu disco Vida boêmia, de 1978, e acrescentando mais uma estrofe: “Muito obrigado ao Noel/ É grande a satisfação/ Ter um parceiro no céu/ Quem fala aqui é o João”.

[Belo Horizonte, 27 de janeiro de 1935]

Meu dedicado médico e paciente amigo Edgar,

Um abraço

Se tomo a liberdade de roubar mais uma vez seu precioso tempo, é porque tenho certeza de que você se interessa por mim muito mais do que eu mereço.

Assim sendo, vou passar a resumir as notícias que se referem à marcha do meu tratamento.

E, […]