Lygia Fagundes Telles cursava ainda a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco quando começou a trabalhar como assistente do Departamento Agrícola do Estado de São Paulo. Embora estudasse para ser advogada, como o pai, aos 20 anos estava certa de que sua vocação era a literatura. Esta carta, escrita para Erico Verissimo, de quem era amiga, testemunha a insatisfação com o cargo público e a criação improvisada de um pequeno e delicioso conto.

São Paulo, 3 de julho de 1943

Erico Verissimo, estou numa sala onde trabalho, isto é, onde devo deixar todos os dias num livro, fincado como um marco, o vestígio da minha passagem. Em outros termos, funcionária pública, a pior funcionária pública que existe no mundo. Leio romances enfurnados na gaveta, tenho o ar dolorido para que não me deem serviço e, […]

No primeiro dia da turnê que Elis Regina fez para o lançamento do álbum Transversal do Tempo, em Recife, dedicou o show a Edival Nunes da Silva, o Cajá, estudante pernambucano de sociologia que fora preso e estava sob tortura dos militares. Como a polícia local ameaçou cancelar as apresentações, Elis, no segundo dia, foi menos explícita na homenagem ao jovem, mas reverenciou-o de forma criativa: entrou no palco sem Dudu Portes, o baterista da banda, e alegou não poder fazer o show sem o integrante, que estava sentado em uma das poltronas do Teatro Santa Isabel, camuflado no meio do público. A cena foi a deixa para Elis, ousada, dizer: “Vem cá, já. Não posso começar o espetáculo sem você”. Segundo o próprio Cajá, “o público logo entendeu o recado e aplaudiu”. Como não conseguiu visitar o estudante na prisão, Elis deixou esta carta em papel timbrado do hotel em que estava hospedada.

Cajá

Estou por aqui. Por sua terra forte e maravilhosa. Sabidamente mais que eu. Me desculpe a ausência. Embora ela seja somente física. E determinada por uma covardia estúpida bem sei. Mas que abrigada no meu interior, me impede gestos maiores e mais amplos. Isso tudo me faz sentir extremamente inferior perto de pessoa como […]

O casamento de Villa-Lobos com a pianista Lucília Guimarães, em 1913, chegaria ao fim depois de 23 anos de convivência. Com esta carta, escrita de Berlim, o maestro e compositor, que ali atuava como delegado nos Congressos Internacionais de Educação Musical, encerra o relacionamento de maneira definitiva, sem deixar espaço para quaisquer avaliações sentimentais ou a menor presença de afeto.

Berlim, 28 de setembro de 1936

Lucília

Esta minha viagem de três meses à Europa foi mais especialmente para decidir de uma vez a minha vida íntima, do que propriamente desempenhá-la como delegado dos Congressos Internacionais e Educação Musical.

Tenho a certeza que não será nenhuma surpresa esta notícia tão decisiva que segue abaixo.

Há muito tempo venho consultando a mim […]

Visitantes de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, dificilmente se dão conta de que a praça Odylo Costa Neto, a única do bairro, homenageia um jovem herói, estudante, que, ao ser assaltado, na companhia da namorada, Irene Loewenstein, e sem ter dinheiro ou objeto de valor, ouviu dos bandidos a ordem de correr e deixar a moça. Ao recusar-se a obedecê-los,  recebeu uma bala calibre 22 que o matou poucas horas depois, no hospital. A notícia da morte, dada pelo pai, o jornalista Odylo Costa, Filho, ao padrinho do rapaz, comove pela emoção contida.

Rio [de Janeiro], 10 de março de 1963

Couto

Seu afilhado não existe mais. Escrevo-lhe este bilhete nas vésperas dos seus 65 anos, quando eu e ele contávamos telefonar-lhe com o nosso nome no plural, só para lhe dar essa notícia, impossível de confiar ao telégrafo.

Ele morreu heroicamente, como homem: saltava ontem à noite do bonde com a namorada, eram dez e […]

Dois mitos da música popular brasileira, Rita Lee e Elis Regina, que aqui se assina Elizabeth Maria, foram vizinhas no bairro paulistano Serra da Cantareira, onde desenvolveram fortes laços de afeto. “Ah se eu tivesse um nono daquela voz”, exclamava a roqueira paulista a respeito do vozeirão da gaúcha – conta Lee na autobiografia.

[1978]

Rita querida,

Foi bom ter te conhecido mais um pouco. Obrigada por tudo.

Conversei um tanto com Henfil a teu respeito. E a respeito da música que você fez pra Ubaldo.[1] Ele ficou surpreso, primeiro. Feliz, depois. E puto pela impossibilidade de ela estar sendo cantada.

Pede que você tente mais uma vez. […]