Vinicius de Moraes escreveu esta carta para seu único filho homem, Pedro, a quem deixa como legado “a insensatez de um coração constantemente apaixonado” – afirma o poeta nesta espécie de testamento poético-afetivo. O legado, na verdade, se revelaria mais concreto: por ter vivido em estimulante ambiente intelectual e artístico, Pedro desenvolveria seu talento para as artes visuais. Tornou-se fotógrafo e coautor, com o pai, do livro O mergulhador, de 1968, obra que reúne fotos suas e poemas de Vinicius. Outro filho que teve a sorte de receber notável carta do pai foi o pianista Nelson Freire, aqui lida em Afetuosamente, o papai. Contrasta com a dura incumbência que deu Rubem Braga ao filho, Roberto Braga, sobre providências a serem tomadas com a sua morte, aqui disponível em Não ceda aos símbolos da morte.  

Pedro, meu filho…

Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai — a insensatez de um co­ração constantemente apaixonado.

E porque te fiz […]

Com a proximidade do primeiro de maio, dia do aniversário de 37 anos de Otto Lara Resende, que, na ocasião, era adido cultural na Embaixada do Brasil, em Bruxelas, Hélio Pellegrino, então com 35 anos, escreve esta carta comovente e afetuosa em que reflete sobre a passagem do tempo e a maturidade.

Rio de Janeiro, 18 de abril de 1959

Meu excelente Otto,

Escrevo-lhe, depois do almoço, em plena tarde de verão, já que esse dadivoso calor carioca não mais se desprega da pele da cidade. Grudou-se a ela, a nós todos, e nos suga pachorrentamente, gruda e gordíssima sanguessuga que nos espreme os poros, os ossos, os poços.

Acabo de passar os olhos no […]

Neste 2019, a coletânea Cartas a um jovem poeta completa 90 anos de publicação. O conjunto de 10 missivas escritas entre 1903 e 1908 ao jovem Franz Xaver Kappus é um dos mais altos momentos da sensibilidade e do pensamento de Rainer Maria Rilke. Para comemorar a data, o Correio IMS convidou Armando Freitas Filho para escrever uma carta a um jovem poeta de nosso tempo.

Rio de Janeiro, 3 de abril de 2019

Meu caro poeta:

Bem sei, não consigo escrever, nem de longe, como Rilke fez com Franz Kappus. Por isso mesmo recomendo a leitura das cartas escritas por ele para quem o procurou faz tanto tempo.

Mas falo da minha experiência, que pode servir a todos que queiram se impregnar de poesia e apreender o poético […]

Colaborador dinâmico em periódicos na América do Sul, junto com sua mulher, a intelectual Lidia Besouchet, Newton Freitas divulgou a literatura brasileira durante seu exílio, sobretudo em Buenos Aires, no período da ditadura militar. Iniciada em 1940, a amizade entre Mário de Andrade e Newton, apesar de curta, foi intensa. Mário via em Newton “o sul-americano sem sumário, que vive necessariamente em sul-americanismo”. Para este, o autor de Macunaíma foio mais belo episódio” de sua vida, porque reunia e resumia as figuras de mestre, herói e irmão mais velho.

São Paulo, 16 de abril de 1944

Meu caro Newton,

Esta carta vai lhe causar algum desgosto, se prepare. Estou respondendo à última sua, que tem tanto assunto que vou responder rápido um por um […].[1] Eu estava no hospital, e aliás mesmo que estivesse presente nada poderia fazer, está claro. Por coincidência, no dia em que o Petit chegou, […]

Um país sob o recente comando do general João Batista Figueiredo – último militar a governar o Brasil antes da abertura política –, o retorno de exilados pela Lei da Anistia promulgada em 1979 e o fim do bipartidarismo político: este é o cenário nacional em que vivia Henfil ao escrever à Dona Maria, sua mãe. Com refinado humor, aponta a falta de esperança e o desânimo coletivo instalados no ar no início daquele ano de 1980. Pai do Fradim e da Graúna, dentre outros personagens clássicos do cartum brasileiro, manteria a coluna “Cartas da mãe” na revista IstoÉ até 1984.

São Paulo, 9 de janeiro de 1980

Mãe,

Sem piadinha. Vou me abrir.

Eu tenho acordado de uns seis meses para cá sem ânimo, sem esperança, sem vontade de brilhar, de lutar, de mudar a Lucinha,[1] o Brasil, o mundo, o universo!

Muitas noites eu não durmo, assombrado. Pensando assim: tô ficando velho, […]