Munido do seu usual sarcasmo, Oswald de Andrade escreveu em 1946 uma crônica em que relatava um episódio vivido em sua infância: o espancamento de uma mulher negra em frente à janela de casa. A experiência levou o escritor paulista a abandonar o diploma de bacharel em Direito e criticar, no artigo, a complacência dos advogados com as injustiças da sociedade brasileira. O texto não passou sem resposta. Cultor da representação de advogado defensor dos oprimidos, Sobral Pinto enviou a Oswald esta carta em favor da classe que, frente à opinião pública, ele representava melhor do que ninguém.  Sobral na verdade protegia seu próprio legado, marcado pela ideia de advocacia como missão pública de defesa da sociedade e, sobretudo, dos mais pobres.

Rio de Janeiro, 26 de abril de 1946

Sr. Oswald de Andrade,

Recebi, nesta heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde há quase 30 anos vegeto como advogado, o seu “Telefonema”, transmitido pelas linhas do Correio da Manhã de terça-feira, 23 do corrente, através da estação da página 2 e do número […]

A troca de cartas entre Vinicius de Moraes e Chico Buarque a respeito de Valsinha mostra como foi a parceria para essa canção que encantou o público. Gravada por Chico no elepê Construção, de 1971, recebeu, no mesmo ano, as interpretações de Ângela Maria, no elepê Ângela, e do grupo MPB-4 em De palavra… em palavra…

Rio [de Janeiro], 2 de fevereiro [de 1971]

Caro poeta,

Recebi as suas duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto […]

O lançamento do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, deu à estreante a convicção de seu futuro de escritora: sobre o livro, e em curto espaço de tempo, escreveriam os nomes mais importantes da crítica literária brasileira, entre os quais Antonio Candido, que viu na obra “performance da melhor qualidade”. Mas faltou um: Mário de Andrade, cujo silêncio até a data desta carta inquietou a romancista a tal ponto que ela, com graça intrigante, reivindica opinião. Lendo-a agora, tem-se a impressão de que Clarice quase desafia o papa do modernismo, tão segura parece se sentir como escritora.  

Belém, 27 de junho de 1944

Mário de Andrade

Acostumei-me de tal forma a contar com o senhor que, embora temendo perturbá-lo e não lhe despertar o menor interesse, escrevo-lhe esta carta.

O fato do senhor não ter criticado meu livro serve evidentemente de resposta e eu a compreendo. No entanto, gostaria de bem mais do que o silêncio, mesmo que […]

Enviada quatro dias antes da promulgação da Constituição de 1937 e amplamente divulgada à época, esta carta condena o então Ministro da Justiça, Francisco Campos, por usar sua decantada inteligência na construção jurídica do regime autoritário. A amizade entre os juristas não amenizou as duras palavras de Sobral Pinto, que se destacou como opositor do Estado Novo desde os primeiros momentos.

Rio, 6 de novembro de 1937

Campos,

Com os olhos voltados tão só para os superiores interesses do Brasil, julgo do meu dever escrever-lhe estas palavras nas quais ponho toda a veemência de que sou capaz, e toda a sinceridade de um homem que nada quer e nada aceita, para si, dos que detêm em suas mãos o poder político da […]

O choque da notícia da morte do cronista e compositor Antônio Maria, em 15 de outubro de 1964, provocou em Vinicius de Moraes uma tal comoção que ele não pôde esperar mais do que algumas horas  para escrever esta carta de ternura e dor, incluída em Para uma menina com uma flor, de 1966.

Aí está, meu Maria… Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada de 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam […]