A cronista brasileira Elsie Lessa envia ao filho, o jornalista Ivan Lessa, esta carta em que faz uma espécie de levantamento genealógico afetuoso da família, especialmente de sua avó, bisavó de Ivan. Escrita em Londres, para onde Elsie Lessa se mudara com seu companheiro, Ivan Pedro Martins, havia três anos, ela quis estar perto do único filho e acompanhar o crescimento da neta, Juliana, nascida em 1976.

Londres, 30 de setembro de 1980

Meu filho,

Afinal chegou o dia desta carta, que me pesa nas entranhas acho que desde o dia – foi 27 de novembro – em que senti você mexendo dentro delas. Sossegue, não é briga. Só amor, nós que somos gente de briga, violentos, temperamentais. Somos. Aceite. Difícil eu […]

Colega de curso na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde  Lygia Fagundes Telles era a única mulher, Antonio Candido, nesta carta, relembra o período em que conheceu a escritora em um concurso de contos. Desta vez, o crítico literário a felicita pelo recebimento do Prêmio Camões – o mais importante da literatura de língua portuguesa –, e reivindica o lugar de ter sido dos primeiros a reconhecer-lhe o talento.

São Paulo, 15 de maio de 2005

Querida Lygia:

Parabéns pelo Prêmio Camões, com muito orgulho para mim por tê-la como colega de galardão. Ninguém o merece mais do que você, não apenas pela alta qualidade da obra, mas pela dignidade da carreira, construída com persistência equivalente à força do talento, num exemplo de vocação servida desde a adolescência pelo trabalho consciente.

[…]

Munido do seu usual sarcasmo, Oswald de Andrade escreveu em 1946 uma crônica em que relatava um episódio vivido em sua infância: o espancamento de uma mulher negra em frente à janela de casa. A experiência levou o escritor paulista a abandonar o diploma de bacharel em Direito e criticar, no artigo, a complacência dos advogados com as injustiças da sociedade brasileira. O texto não passou sem resposta. Cultor da representação de advogado defensor dos oprimidos, Sobral Pinto enviou a Oswald esta carta em favor da classe que, frente à opinião pública, ele representava melhor do que ninguém.  Sobral na verdade protegia seu próprio legado, marcado pela ideia de advocacia como missão pública de defesa da sociedade e, sobretudo, dos mais pobres.

Rio de Janeiro, 26 de abril de 1946

Sr. Oswald de Andrade,

Recebi, nesta heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde há quase 30 anos vegeto como advogado, o seu “Telefonema”, transmitido pelas linhas do Correio da Manhã de terça-feira, 23 do corrente, através da estação da página 2 e do número […]

A troca de cartas entre Vinicius de Moraes e Chico Buarque a respeito de Valsinha mostra como foi a parceria para essa canção que encantou o público. Gravada por Chico no elepê Construção, de 1971, recebeu, no mesmo ano, as interpretações de Ângela Maria, no elepê Ângela, e do grupo MPB-4 em De palavra… em palavra…

Rio [de Janeiro], 2 de fevereiro [de 1971]

Caro poeta,

Recebi as suas duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto […]

O lançamento do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, deu à estreante a convicção de seu futuro de escritora: sobre o livro, e em curto espaço de tempo, escreveriam os nomes mais importantes da crítica literária brasileira, entre os quais Antonio Candido, que viu na obra “performance da melhor qualidade”. Mas faltou um: Mário de Andrade, cujo silêncio até a data desta carta inquietou a romancista a tal ponto que ela, com graça intrigante, reivindica opinião. Lendo-a agora, tem-se a impressão de que Clarice quase desafia o papa do modernismo, tão segura parece se sentir como escritora.  

Belém, 27 de junho de 1944

Mário de Andrade

Acostumei-me de tal forma a contar com o senhor que, embora temendo perturbá-lo e não lhe despertar o menor interesse, escrevo-lhe esta carta.

O fato do senhor não ter criticado meu livro serve evidentemente de resposta e eu a compreendo. No entanto, gostaria de bem mais do que o silêncio, mesmo que […]