Morador de Londres desde 1968, o jornalista Ivan Lessa nunca se desligou dos amigos brasileiros. Na capital londrina, onde passara a colaborar na British Broadcasting Corporation, a BBC de Londres, não deixava de receber cartas como esta, de Millôr Fernandes, que, em estilo consagrado, dá notícias do que acontecia no Brasil durante o truculento governo Médici.

Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1970

Meu amor I! Vão, lê essa:

Eu sei que a hora não está para trocadilhos mas, que fazer, como diziam Lenine e Ignazio Silone?[1] Com Francis preso eu fico com a responsabilidade da cultura, com o Tarso preso eu fico também com a irresponsabilidade da incultura, com o Fortuna[2] preso sou […]

Foi com esta carta escrita depois da experiência da perda do pai, o médico Braz Pellegrino, que Hélio Pellegrino o homenageou. Tão lúcido quanto humano e afetuoso, o depoimento reflete a ternura do sentimento de filho na véspera da data de aniversário do pai, morto aos 63 anos, no dia 15 de dezembro de 1969.

S.l., [21 de agosto de 1970]

Pai,

Amanhã, dia 22 de agosto, é seu aniversário. E você está morto. Pela primeira vez você aniversaria, estando morto. Isto quer dizer: você, em verdade, não aniversaria, você está além do tempo, fora dele, imerso na eternidade. Você, que já morreu, isentou-se do tempo, não aniversaria mais, nem morre mais. Você está maduro, cumprido, […]

Esta carta do autor de Capitães da areia foi escrita especialmente para o Calendário Pirelli de 1971, cujo tema era “a Bahia de Jorge Amado”. Nela, o escritor fala de seu estado natal e também de seus livros e personagens famosos, como Dona Flor e Gabriela. Reproduz-se aqui uma pequena parte da edição em livro que pertence ao arquivo de Otto Lara Resende, sob a guarda do Instituto Moreira Salles.

Salvador, junho de 1970

A admiradora perguntou ao pintor Carybé, o mais baiano dos baianos:

— O senhor nasceu na Bahia?

O pintor das mulatas, dos orixás, da puxada de xaréu,[1] da capoeira, respondeu com seu sorriso breve:

— Não mereci, minha senhora.

Bem que merecia e ninguém mais do que ele pois de suas mãos mágicas […]

Por ocasião do nascimento de Sílvia Buarque de Hollanda, a primeira filha de Chico Buarque e Marieta Severo, em Roma, em 28 de março de 1969, o flamenguista Cyro mandou uma camisa do Flamengo de presente à recém-nascida. O pai da menina, torcedor do Fluminense, agradeceu com este samba/carta que gravaria em seu disco Chico Buarque de Hollanda nº 4, de 1970. Nesse mesmo ano, o próprio Cyro regravou a canção em seu elepê Alô, jovens, tio Cyro Monteiro canta sambas dos sobrinhos. Gravações à parte, Cyro venceu: Sílvia tornou-se torcedora do Flamengo.

Roma, 1970

Amigo Cyro
Muito te admiro
O meu chapéu te tiro
Muito humildemente
Minha petiz
Agradece a camisa
Que lhe deste à guisa
De gentil presente
Mas caro nego
Um pano rubro-negro
É presente de grego
Não de um bom irmão
Nós separados
[…]